Cultura

'O primeiro homem' balanceia com sucesso, ação espacial e drama familiar

Filme conta a história de Neil Armstrong, primeiro homem a pisar na Lua.




Ryan Gosling em O primeiro homem.

RESENHA DA REDAÇÃOO PRIMEIRO HOMEM (EUA, 2018, 141 min.)
Direção: Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy
★★★★☆

 

“Este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”. A frase ficou eternizada na História quando Neil Armstrong se tornou, em 1969, o primeiro homem a pisar na Lua; mas poucos conhecem os bastidores da chegada da humanidade ao satélite. É essa jornada que O primeiro homem (First man, 2018), filme que estreia nesta quinta-feira (18) nos cinemas da Paraíba, conta.

Ryan Gosling vive Neil Armstrong, o primeiro ser humano a por os pés na Lua. Antes de chegar a esse feito, entretanto, Armstrong trabalhava como um simples piloto de testes para a Nasa, em 1961. A morte de sua filha, provocada por um câncer no cérebro, leva o piloto a mergulhar no trabalho e a se inscrever no Projeto Gemini, um programa da Nasa que tinha o objetivo de levar uma nave tripulada ao espaço.

A partir daí, o filme intercala as diferentes missões que Armstrong e outros membros da Nasa participaram na tentativa de levar uma equipe à Lua. É interessante acompanhar a ascensão de Neil na agência, passando de piloto de testes a figura central nas missões que antecederam a Apollo 11, como a Gemini 8 e Apollo 1. Apesar de Armstrong ser, naturalmente, o foco da história, o filme consegue construir uma relação de empatia entre o espectador e os outros membros das missões – e, quando alguns deles são mortos durante acidentes ou falhas, nós sentimos a perda tanto quanto Neil.

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À medida que o objetivo de chegar à Lua vai se tornando mais custoso – tanto financeiramente quanto em termos de vidas perdidas -, o estado psicológico do protagonista vai sutilmente se deteriorando. Gosling consegue encarnar o personagem com maestria, e os momentos de dor – da perda da filha à morte dos colegas – são vividos em intensidade inversamente proporcional à apatia que o astronauta demonstra em relação a assuntos cotidianos: a chegada à Lua vai se tornando, lentamente, uma obsessão.

Há que se destacar a competência do diretor Damien Chazelle (do ótimo Whiplash e do mais ou menos La la land) em provocar no público uma sensação bastante vívida do que seria estar dentro de uma nave enquanto ela é expelida da atmosfera terrestre. Chazelle faz uso frequente da câmera subjetiva (quando acompanhamos os eventos através dos olhos das personagens), o que provoca uma maior inserção do espectador na situação: há cenas verdadeiramente claustrofóbicas e desconcertantes, especialmente para quem tem maior suscetibilidade. O diretor também amplifica os efeitos sonoros: cada batida e arranhão provocado na aeronave durante as decolagens podem ser ouvidos com clareza, e chegamos a temer sinceramente que aquilo tudo vá explodir a qualquer momento.

O primeiro homem tenta ardentemente passar a mensagem de que Armstrong só se sentia verdadeiramente em casa quando estava no trabalho (ou no espaço; aqui os dois significam a mesma coisa). O ambiente doméstico é retratado como um espaço de tensões e desconforto: tanto Neil quanto sua esposa, Janet (Claire Foy) são constantemente enquadrados em recintos pequenos e apertados, como corredores e janelas; os outros filhos do casal pedem frequentemente para “ir brincar lá fora” – o que é perfeitamente natural para uma criança, mas que no filme soa também como uma tentativa de escape da atmosfera carregada que ronda o seio familiar.

o primeiro homem

Gosling e Coy em cena de O primeiro homem.

É nesse contexto que a personagem de Janet ganha particular brilho. Seria uma saída infeliz (mas previsível) reduzir a mulher ao papel de esposa preocupada, mas O primeiro homem de fato constrói uma personagem complexa que, apesar de podada nas suas escolhas pessoais e amargurada com a instabilidade e a ausência do marido, não consegue simplesmente abandoná-lo. A luta interna de Janet culmina em uma triste e bela cena que antecede a partida de Neil para o Apollo 11, e Coy merece todo reconhecimento que tiver direito pela dor que transmite apenas com seu olhar.

Para além da carreira de Neil e de sua conturbada vida pessoal, o filme triunfa, ainda, em inserir a trama no contexto histórico dos anos 1960. Todas as missões são identificadas pelo título que receberam e data em que ocorreram, e embora não seja o enfoque do roteiro, há rápidas menções à corrida armamentista que justificava os investimentos da agência espacial, contextualizando o filme no âmbito da Guerra Fria. O longa não foge, inclusive, das discussões sociais provocadas pela frenética exploração espacial: a reação negativa de grande parte da sociedade norteamericana diante dos absurdos gastos financeiros da Nasa e das seguidas mortes de astronautas enquanto grande parte da população vivia na pobreza é enfrentada sem pudor. Ao invés de esconder as contradições das ideias defendidas por Neil e pelo governo, O primeiro homem dá voz aos que se posicionaram contra a extravagância da corrida armamentista e deixa o debate em aberto.

O filme de Chazelle deve, por fim, agradar especialmente aos fãs de obras do gênero, como os recentes Interestelar e Gravidade. A cena da chegada à Lua é tão tensa quanto emocionante, e as sequências no espaço são belamente filmadas. O primeiro homem poderia, de fato, ser uns 15 minutos mais curto, já que algumas cenas no segundo ato parecem supérfluas e certos momentos não são tão emocionantes quanto pretendiam; mas tudo isso é detalhe, e esta é uma jornada que vale totalmente a pena.


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