Cultura

'Nasce uma estrela': Lady Gaga brilha em musical comovente

Cantora – agora atriz – se destaca ao interpretar uma jovem artista em relacionamento problemático.




Lady Gaga e Bradley Cooper em Nasce uma estrela.

RESENHA DA REDAÇÃONASCE UMA ESTRELA (EUA, 2018, 135 min.)
Direção: Bradley Cooper
Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott
★★★★☆

 

Os bastidores da fama – ou a ideia romântica do gênio perturbado – é um tema caro ao cinema: não é por acaso que Nasce uma estrela (A star is born, 2018), que estreia nos cinemas da Paraíba nesta quinta-feira (11), seja uma quarta adaptação da mesma história. A primeira versão do filme foi realizada no ano de 1937, protagonizada pela atriz Janet Gaynor. Nomes como Judy Garland e Barbra Streisand passaram pelas outras adaptações; agora, em 2018, coube à cantora Lady Gaga o papel de representar, com louvor, a estrela do título.

Gaga vive Ally, uma jovem cantora e compositora que trabalha como garçonete durante o dia e canta em um bar de drag queens à noite. O destino de Ally se cruza com o de Jackson Maine (Bradley Cooper), um famoso cantor country de renome internacional, quando ele, alcoolizado após um show, vai ao bar em que Ally está prestes a se apresentar. A jovem cantora performa uma versão de La vie en rose, impressionando Jackson. A partir daí, o previsível: ambos se tornam íntimos e acabam se apaixonando.

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A proposta da paixão entre tutor e pupilo é de fato bem conhecida do público, mas isso não impede o filme de criar um romance interessante. O roteiro evita tomar lados e julgar as protagonistas, e acompanhamos o agravamento do alcoolismo de Jackson, seus ciúmes, sua mania de superioridade intrinsecamente masculina e suas bizarrices (uma delas tão vergonhosa que o espectador deve se encolher um pouco na poltrona) como intrusos preocupados, mas não juízes. É fácil, assim, ser cativado pelo problemático astro country. A atuação de Cooper é mais do que competente, e desde sua primeira cena já temos indícios da personalidade atormentada e adicta do cantor. Cooper, inclusive, também dirige e consegue imprimir certa personalidade ao filme – apesar de certos momentos caóticos durante as apresentações musicais -, principalmente através das cores e tonalidades que utiliza em conjunto com o diretor de fotografia Matthew Libatique (de Cisne negro). Quando encontramos Ally pela primeira vez, por exemplo, a vemos inserida em um ambiente sem personalidade, branco e sanitizado; à medida que a paixão com Jackson vai se tornando mais intensa, prevalecem os tons de rubro e roxo.

Apesar da competência de Cooper, é Lady Gaga quem, como sua Ally, vira o centro dos holofotes em Nasce uma estrela. De uma cantora de bar tímida e insegura à uma megaestrela mundial, Gaga vive todas as fases de Ally com uma sinceridade e entrega absolutas; especialmente belo é o momento em que a jovem canta para uma grande multidão pela primeira vez: a cantora/atriz, sem dificuldades, encarna sentimentos conflitantes que passam pelo receio, pelo medo, pelo alívio e pelo júbilo. Existem diversos elementos no filme que soam autobiográficos para Gaga (uma piada recorrente sobre o nariz da personagem certamente foi inspirada na própria cantora), o que deve sem dúvida explicar seu conforto enquanto interpreta Ally.

Cooper e Gaga em cena do filme.

Para além do bem-sucedido romance e do destaque de Gaga, Nasce uma estrela levanta uma série de questões sobre a fama e a indústria fonográfica norte-americana. Jackson é extremamente respeitado e apreciado por sua música country – um gênero que ressuscitaria as raízes e a identidade do povo dos Estados Unidos ao mesmo tempo em que possibilita a expressão sincera da subjetividade e dos sentimentos. Sob a influência de Jackson, é justamente através do country que Ally começa sua carreira (e aqui o filme nos faz lembrar de outra diva pop mundial, Taylor Swift) cantando sobre amor, dor e paixão.

Mas, naturalmente, a indústria logo chega para podar a criatividade: ao se unir ao produtor Rez (Rafi Gravon), Ally passa por um “ajuste de imagem”: tinge o cabelo, coloca roupas brilhantes e apertadas e ganha um time de dançarinos para espelhar seus movimentos bem ensaiados . Saem de cena a inspiração e a espontaneidade em detrimento do ensaio, de sessões de foto e de letras rasas. Suas músicas não falam mais sobre a pureza do amor romântico, mas sobre sexo e relacionamentos passageiros: “sai do meu pé”, canta ela em uma das apresentações, enquanto Jackson assiste, soturno, dos bastidores. O confronto gerado entre o casal a partir dessa mudança de rumo na carreira de Ally reflete uma discussão sempre presente de que o pop, com suas músicas fáceis, apelo sexual e orientação mercadológica, seria um gênero fonográfico menor e indigno, voltado apenas para o ganho financeiro. Para além disso, a constante submissão de Ally a figuras masculinas – seja Jackson ou Rev – aponta ainda para a o machismo operante na indústria musical norte-americana.

Emocionante e intenso, Nasce uma estrela conta ainda com belos números musicais – o que não é surpresa alguma vindo de Gaga – escritos pela protagonista e pelo cantor Lukas Nelson, filho de Willie Nelson. Já é de conhecimento público as carreiras meteóricas de Lady Gaga e de Ally na indústria musical – agora, tudo indica também que uma nova estrela nasce no cinema. A ver.


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