Cultura

'Mamma Mia! Lá vamos nós de novo': um 'lado B' ainda melhor que o original

Filme diverte com números de ABBA e emociona ao explorar relação entre mãe filha.




mamma mia! lá vamos nós de novo

Mamma Mia! Lá vamos nós de novo: vale a pena ir sim.

RESENHA DA REDAÇÃOMAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO (EUA; REINO UNIDO, 2018, 114 min.)
Direção: Ol Parker
Elenco: Christine Baranski, Pierce Brosnan, Colin Firth, Andy García, Lily James, Amanda Seyfried, Stellan Skarsgård, Julie Walters
★★★★☆

 

Os que chegaram a pegar a época dos discos de vinil ou fitas cassete sabem: os grandes hits dos artistas, as músicas escolhidas pelos produtores, vinham gravadas no lado A. O lado B era reservado às canções que inicialmente poderiam não ser tão apelativas ao público, mas que eram tão boas quanto – ou ainda melhores – do que as faixas principais. Bem, se tal analogia pode ser feita, Mamma Mia! Lá vamos nós de novo (Mamma Mia! Here we go again, 2018), que estreia nos cinemas da Paraíba nesta quinta-feira (2), é o lado B perfeito para o musical de 2008.

O filme se propõe a contar duas histórias distintas, mas intimamente ligadas – o passado de Donna (Lily James/Meryl Streep) e sua história com Sam (Jeremy Irvine/Pierce Brosnam), Bill (Josh Dylan/Stellan Skarsgård) e Harry (Hugh Skinner/Colin Firth); e os esforços da filha Sophie (Amanda Seyfried) ao assumir a direção do hotel da mãe. É estabelecida, logo no início, a conhecida estrutura de flashbacks característica de filmes que contam histórias em tempos diversos; mas, aqui, o recurso não se torna cansativo nem mecânico, já que a direção de Ol Parker (que também escreveu), apesar de não tomar muitos riscos, encontra ganchos criativos e explora os ambientes para alternar entre passado e presente.

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Fica claro, logo no primeiro minuto, que Lá vamos nós de novo quer de fato honrar o gênero musical – mal o filme começa, When I kissed the teacher começa a tocar, com direito a um número musical completo. O filme, portanto, deve agradar aos fãs do primeiro filme e do gênero como um todo: são nada menos que 18 músicas nas duas horas de exibição, a maior parte de canções que não entraram no primeiro longa – mas, procurando atrair uma grande parcela do público menos familiar ao quarteto sueco, os hits Waterloo, I have a dream, Mamma mia, Souper trouper e a impagável Dancing queen não foram deixados de fora.

Embora algumas músicas sejam inseridas de forma mais natural (na medida do possível) no diálogo entre as personagens, grande parte das canções é acompanhada de números musicais extravagantes, e Lá vamos nós de novo manda o realismo às favas e consegue ser ainda mais bizarro e divertido que seu predecessor – especialmente após os minutos iniciais, que não conseguem envolver tanto e soam como um ensaio para o que está por vir. Mas isso logo passa, e o número de Dancing Queen, embora lembre aquele visto em Mamma Mia!, é ainda mais grandioso e cativante nesta segunda parte.

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Passado de Donna é um enredos do filme.

As canções de ABBA não são o único ponto forte do filme. A relação de Donna com seus três amantes do passado acaba ficando em segundo plano e não chama muito a atenção depois que o espectador sai do cinema: ainda que envolva pelas atuações dos protagonistas, já foi vista inúmeras vezes em outras comédias românticas. Tanya
(Jessica Keenan/Christine Baranski) e Rosie (Alexa Davies/Julie Walters) retornam como as espirituosas parceiras de Donna. O filme ainda conta com participações especiais de Björn Ulvaeus e Benny Andersson, ex-integrantes do ABBA, e da cantora Cher (nada mais apropriado).

Mas o que mais chama a atenção em Mamma Mia! Lá vamos nós de novo é o relacionamento construído entre mãe e filha. O esforço de Sophie em gerir o hotel da mãe é retratado paralelamente, como que num espelho, à jornada de Donna em reconstruir do nada, anos antes, o prédio decadente. A noção de espaço ganha, no filme, uma atenção especial: o hotel deixado por Donna é a maior testemunha dos laços que unem mãe e filha. Como na vida real, em que somos todos constituídos através de ambientes: a casa em que passamos a infância; a cozinha de vó nos fins de semana; os quartos dos amigos durante a adolescência – não são apenas paredes e móveis e concreto, mas espaços fundamentais à nossa identidade, que evocam lembranças, pessoas, dores e alegrias.

Após o lançamento do musical, houve, nas redes sociais, certa crítica com relação às inconsistências temporais do filme, mas isso me parece ser algo secundário; em Lá vamos nós de novo, espaço e tempo se confundem, e a importância do tempo cronológico, do passar linear dos anos, é diminuída em favor do afeto que se avoluma diariamente nas relações com amigos, amantes, familiares e vizinhos; afeto que atinge seu ápice no carinho com que Sophie cuida do hotel da mãe.

É esse espaço de afeto materno que dá ao filme, para além de toda a descontração musical e estética kitsch, um tom surpreendentemente emotivo. É impossível, assim, sair da sala de exibição indiferente – na verdade, a expectativa é que, quando as luzes se acenderem, uma performance completa composta por um mix de músicas de ABBA vai começar ali mesmo, na sala de cinema. Quem sabe. Só por essa possibilidade, já vale a pena ir assistir.


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