Cultura

'Halloween': Michael Meyers volta à forma em sequência do filme de 1978

Filme associa horror gore aos instintos básicos da violência e do trauma.




Michael Meyers volta aos cinemas com Halloween.

RESENHA DA REDAÇÃOHALLOWEEN (EUA, 2018, 105 min.)
Direção: David Gordon Green
Elenco: Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak
★★★★☆

 

Releituras ou sequências de clássicos são, via de regra, um desserviço ao trabalho original; basta olhar para as sequências de Psicose (Psicose II, III…) e O bebê de Rosemary (A semente do diabo 2), por exemplo, para ficar apenas no âmbito do gênero de horror. São filmes esquecíveis, justificáveis apenas pela intenção dos produtores em ganhar dinheiro. Com Halloween, de John Carpenter, aconteceu o mesmo: nada menos do que nove sequências ou spin offs foram produzidos a partir das personagens e da história do filme de 1978, todos com qualidade – para usar uma palavra generosa – duvidosa.

Halloween (2018), que estreia nos cinemas da Paraíba nesta quinta-feira (25), representa, assim, a décima primeira aventura de Michael Myers nos cinemas. O longa, dirigido por David Gordon Green e produzido por Carpenter, ignora todos os outros episódios da série e estabelece uma relação direta com o filme original.

Quarenta anos depois dos assassinatos em Haddonfield, Michael Myers encontra-se preso em uma instituição psiquiátrica enquanto Laurie Strode (Jamie Lee Curtis reprisando mais uma vez o seu papel), que sobreviveu aos ataques, vive em seu próprio confinamento pessoal: traumatizada pelos acontecimentos do passado, a mulher permanece reclusa em casa, estocando comida e armamento e praticando tiro ao alvo enquanto espera o inevitável retorno de Michael. No Dia das Bruxas, o reencontro é iminente: ao ser transportado da instituição psiquiátrica em que estava internado para uma outra unidade, Michael consegue escapar e inicia sua jornada à procura de Laurie para terminar o serviço de quatro décadas atrás.

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O que diferencia esta versão de Halloween dos demais é justamente o enfoque no relacionamento bruto e complexo que existe entre Michael e Laurie. Filmes como O retorno de Michael Myers (1988) e A maldição de Michael Myers (1995) se preocuparam em construir uma mitologia sem pé nem cabeça em torno da figura do vilão, desmistificando-o; alguns tentaram explorar a infância de Michael, sua vivência familiar, suas emoções… na sequência de 2018, Meyers volta a adquirir um status obscuro e indefinido, uma força movida por uma pulsão quase sobrenatural e puramente violenta.

Este retorno às raízes pode ser percebido logo na sequência inicial do filme, quando uma dupla de jornalistas que investiga o caso de Meyers vai ao hospital psiquiátrico para tentar entrevistá-lo. Assumindo as sensações de uma das repórteres, o filme exacerba sons e movimentos, transmitindo ao espectador o medo e o receio da moça antes de se encontrar com o interno – remetendo, inclusive, à abertura do Halloween de 1978, quando acompanhamos um homicídio do ponto de vista do assassino. O que interessa, nos dois filmes, não são motivações ou explicações, mas sensações e impulsos.

Myers é um ser movido por duas forças aparentemente opostas, mas complementares: o sexo e a morte. Muito se discutiu, nesses quarenta anos desde o lançamento de Halloween, as implicações sexuais dos assassinatos do psicopata, já que suas vítimas eram frequentemente adolescentes femininas de perfil pudico, às vias de começar ou recém iniciadas na vida sexual. Na versão de 2018, Michael é igualmente obcecado com essas questões – em um flashback, assistimos ao assassinato de sua irmã, Judith, que estava despida, e boa parte de seus  suas vítimas são jovens moças com interesses amorosos; mas o novo Michael torna-se ainda mais ameaçador, e crianças e donas de casa também não escapam de seus ataques. A mensagem é clara e atual: jovens moças não são mais as únicas vítimas em 2018.

Quarenta anos depois, Laurie se reencontra com os medos que tentou reprimir.

É ao retornar aos princípios básicos do horror slasher que Halloween consegue surpreender e escapar da sina das sequências e spin offs. Os assassinatos dos primeiros dois atos devem satisfazer plenamente os fãs do gênero, já que Michael é incrivelmente criativo em encontrar formas diferentes de matar pessoas usando uma faca. Não há pudor nas cenas de crime, mas há um balanço ideal encontrado entre o gore e o mau gosto gratuito. A trilha sonora (composta por Carpenter), que retoma o tema clássico e o atualiza, tornando-o mais urbano e eletrônico, é um incremento bem-vindo aos homicídios.

Se boa parte do filme não assusta no sentido literal da palavra e entrega-se mais à carnificina, Halloween compensa essa falta criando uma atmosfera de completamente tensão nos seus últimos trinta minutos. O conflito entre Michael e Laurie, construído quase como a reunião entre dois amantes, importa menos pelo embate em  si e mais pela expectativa, pela tensão e pelo trauma acumulado que se adensa, em ebulição, antes do reencontro. Fica claro, enquanto Laurie luta mais uma vez por sua vida, que a violência maior contra seu corpo não foi provocada por uma faca envolta em sangue, mas pelo medo que a atormentou e pelo peso que carregou dentro de si durante tantos anos. É impossível ficar indiferente.

Existem, também, alguns tropeços: o médico que cuidou de Michael no instituto, Dr. Rambir (Haluk Bilginer), embora seja um personagem interessante no início do filme, muda completamente de postura na metade de exibição, no que deveria ser um plot twist chocante, mas que acaba se tornando apenas sem sentido. E, embora o relacionamento entre Laurie e sua filha, Karen (Judy Greer), e a neta, Allyson (Andi Matichak), seja bem retratado como uma espécie de tríade feminina contra a violência masculina do vilão, Allyson é particularmente sem graça e plana, exigindo uma enorme boa vontade do espectador para que qualquer empatia possa ser criada.

Violento, atual e instigante, Halloween faz jus à obra de John Carpenter após outras nove tentativas. Antes tarde: pode-se afirmar, finalmente, que Michael Myers – questionamentos à parte – está mais vivo do que nunca.


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