Cultura

'Buscando...' é suspense envolvente e inteligente com linguagem de internet

Mistério sobre desaparecimento de adolescente faz comentário sobre relação que mantemos com tecnologia.




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John Cho em Buscando…; filme se passa quase que inteiramente em telas de computador.

RESENHA DA REDAÇÃOBUSCANDO… (EUA, 2018, 102 min.)
Direção: Aneesh Chaganty
Elenco: John Cho, Debra Messing, Michelle La
★★★★☆

 

Muito se discute, hoje em dia, sobre a quantidade de informações que deixamos online sem nem mesmo perceber: para usar qualquer rede social, contratar qualquer serviço, realizar uma compra que seja, digitamos dados, endereços e concordamos com termos de uso que nunca lemos. Na internet, não há privacidade – por mais que tentemos proteger nossos perfis. E é no centro deste debate que situa-se Buscando…, filme que estreia nesta quinta-feira (20) nos cinemas da Paraíba. À primeira vista, o longa pode parecer apenas um suspense investigativo como tantos outros; mas, felizmente, quem procurar vai perceber que o filme, assim como o mistério central da história, guarda segredos que podem passar despercebidos.

A premissa é simples: quando a adolescente Margot Kim (Michelle La) desaparece, seu pai David (John Cho) começa uma busca frenética na tentativa de descobrir o paradeiro da filha. Como pista principal, ele tem o notebook da jovem. Deve-se ressaltar que pode causar estranheza, no espectador, a linguagem utilizada: o filme se passa, em sua totalidade, em telas – seja de notebooks, de celulares ou de televisões. A partir dessa base, Buscando… consegue construir uma narrativa enérgica, empolgante, inteligente e completamente sintonizada com os dias atuais.

O mistério que move a história é intrigante e envolvente o suficiente. A impressão que fica é que, durante toda a exibição, a narrativa está sempre um passo à frente do espectador: quando você acha que está prestes a descobrir o que aconteceu com Margot, uma pista nova aparece ou um plot twist (aqui utilizado inteligentemente) muda os rumos da trama.

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Além de prender pela angústia e curiosidade, Buscando… também se revela surpreendentemente emocional para uma obra em que só temos acesso a “versões digitais” de seus personagens. O filme teve que operar numa espécie de “duplo afastamento” – do ator em relação ao espectador, como acontece normalmente, e do ator em relação à sua representação virtual em fotografias, chats e transmissões. E é extremamente bem-sucedido, apesar dessa dificuldade adicional. Palmas para a direção de Aneesh Chaganty e para a atuação de John Cho, que consegue encarnar a complexa situação de um pai desesperado sem recorrer a arroubos e escândalos.

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Cena de Buscando…

Existem, é certo, algumas falhas: em alguns momentos, as atuações das personagens secundárias em chats e streamings soam artificiais, como se elas estivessem dispostas a dizer exatamente o que David precisa para elucidar o mistério. Há, também certa formalidade nas mensagens trocadas na internet, o que se torna inverossímil para um ambiente em que gírias, variações e abreviações são comuns. O roteiro também precisa recorrer a coincidências para que as pistas se encaixem na resolução do desaparecimento – mas uma dose de descrença é sempre necessária na ficção, e nenhum desses tropeços prejudica a experiência em geral do longa.

Rastros online

A trama é envolvente e emocionante, as atuações são excelentes e o ritmo nunca se torna entediante. Apesar disso, o principal trunfo do filme é a mensagem construída nas entrelinhas e a maneira como ela é construída. Buscando… mostra-se inventivo desde o formato que adota: como foi dito, ele dialoga fortemente com a linguagem da internet, passando-se  em telas dentro da tela. Acompanhamos a história não através de uma montagem cinematográfica clássica, mas por meio de dispositivos como os computadores de Kim ou Margot, do celular do pai, de câmeras de segurança. Embora não exatamente original (o estilo já havia sido realizado, na TV, em séries como Modern family, e no cinema em filmes como Amizade desfeita), em Buscando… a abordagem é realizada com maestria e serve perfeitamente à narrativa. A partir dos rastros que Margot deixou online, o pai pode lentamente reconstruir os passos da filha antes do seu desaparecimento.

A primeira imagem do filme é a tela principal clássica do Windows XP: colinas verdejantes contra um céu azul, com direito a barra de tarefas, botão Iniciar e tudo. Ao mesmo tempo em que isso provoca um estranhamento imediato, ele logo vai sendo substituído por um sentimento de associação – estamos todos muito acostumados com aquilo, e a escolha do filme em retratar sites, redes e aplicativos reais (ao invés de nomes e layouts genéricos, vemos o YouTube, Facebook, Skype e etc. como eles de fato são) possibilita uma impressionante relação de empatia com as personagens. Por isso, a sequência inicial que retrata a vida e morte da mãe de Margot, Pamela (Sara Sohn) torna-se tão emocionante: no século XXI, apagar uma pasta repleta de fotos equivale a decretar a morte de uma pessoa.

Filme alterna entre diferentes ambientes virtuais conhecidos do espectador.

O longa, assim, é sintomático de uma espécie de ansiedade que perpassa a existência do ser humano atualmente: não existir digitalmente é simplesmente não existir. Não vivemos experiências a não ser que elas estejam registradas em algum endereço online; salvas do completo esquecimento, ainda que virtualmente inacessíveis dentre outras milhões de informações carregadas diariamente na internet. A preocupação de David quando Margot fica offline por algumas horas, embora tenha se mostrado fundamentada, revela a exigência que nos é imposta no mundo “aqui fora”: precisamos estar sempre disponíveis a todos; desligar não é uma opção. Para tanto, deixamos uma verdadeira mina de informações nas mãos de estranhos, livres para serem utilizadas por qualquer um, de pessoas má intencionadas a empresas de publicidade: a crise do homem moderno é perder o pertencimento de si mesmo.

Buscando… entretém, mantém o espectador preso durante toda a investigação e emociona. Para além disso, faz um comentário assustador e necessário sobre a relação que mantemos com a tecnologia e a criação de um “eu” digital completamente independente de nossas existências reais – ao ponto em que, mesmo quando partimos, nossa versão online, controlada sabe-se lá por quem, continua a nos suceder.

 


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