Cultura

Político e representativo, 'Pantera Negra' foge da dualidade fácil entre mocinho e vilão

Longa se destaca dentre os filmes da Marvel ao desviar o olhar em direção à África e a questões raciais.




pantera negra crítica

Chadwick Boseman como o Rei T’Challa em Pantera Negra.

RESENHA DA REDAÇÃOPANTERA NEGRA  (EUA, 2018, 134 min.)
Direção: Ryan Coogler
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman
★★★★☆

 

Estreia nesta quinta-feira (15) nos cinemas da Paraíba Pantera Negra (Black Panther, 2018)*, mais novo longa a integrar o Universo Expandido da Marvel. Mas, ao contrário dos filmes que giram em torno de personagens como Capitão América, Homem Aranha e Homem de Ferro, Pantera Negra – dirigido por Ryan Coogler e com um elenco predominantemente negro – se destaca ao desviar os olhares dos brancos e dos Estados Unidos em direção à África e a questões raciais.

A história começa com a morte do rei de Wakanda, T’Chaka (John Kani) – evento retratado em Capitão América: Guerra Civil (2016) – e o retorno de seu filho, T’Challa (Chadwick Boseman), a Wakanda para assumir o cargo de Pantera Negra, o rei da avançada e isolada nação africana. O roubo de um artefato feito de vibranium – o metal alienígena que dá a Wakanda suas vantagens tecnológicas e confere poder ao Pantera Negra – leva a uma busca por Ulysses Klaue (Andy Serkis), que já havia roubado vibranium do país há alguns anos.

Caso a trama de Pantera Negra se baseasse apenas nessa premissa, estaríamos diante de um esquema característico entre mocinho e vilão. O filme, entretanto, se torna mais complexo quando os reais interesses por detrás do roubo da substância são revelados.

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Michael B. Jordan e Chadwick Boseman em Pantera Negra.

O verdadeiro antagonista do longa é Erik Killmonger, ou N’Jadaka (Michael B. Jordan), um wakandense que passou a vida nos Estados Unidos e acredita que o país africano deve usar toda sua riqueza e tecnologia para ajudar a população negra ao redor do mundo. Nesse sentido, o vilão é o personagem que confere ao filme toda sua carga política e o importante questionamento que levanta: como uma imponente, rica e privilegiada nação negra pôde dar suas costas ao sofrimento causado por séculos de racismo no resto do mundo?

Entram em conflito na ficção, assim, duas visões ideológicas com inspirações históricas: enquanto T’Challa relembra os ideais pacificadores de Martin Luther King, N’Jadaka encarna uma postura mais próxima de outro líder pela luta de direito dos negros. “É criminoso ensinar um homem a não se defender quando ele é uma vítima constante de ataques brutais”, disse Malcom X. A pretensão de N’Jadaka de revidar a qualquer custo, de ajudar seus irmãos e de encerrar os tempos de opressão contra a população negra, mesmo que para isso seja necessário o uso de violência, é totalmente compreensível e louvável.

Mas o filme precisa, de qualquer forma, de um vilão e, assim, entram em jogo (talvez de forma um pouco previsível demais) a ambição e o desejo de vingança pessoal de N’Jadaka, que tornam os seus objetivos um tanto menos gloriosos e mais mesquinhos. O reino de Wakanda se divide e segue-se uma longa e empolgante batalha pelo trono (Pantera Negra afinal é um blockbuster, e um ótimo entretenimento) embalada pela ótima trilha sonora de Ludwig Göransson – que viajou para o Senegal e para a África do Sul para obter gravações de músicos locais – e pela música selecionada pelo cantor Kendrick Lamar.

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Um dos poucos aspectos do filme que incomodam é o tratamento dado aos personagens secundários, que apenas giram em torno da dupla principal e não ganham muita profundidade. Mas, pelo menos, é uma “falha” proposital: o roteiro deliberadamente decide se voltar para questões diretamente relativas ao futuro de Wakanda, o que é uma escolha compreensível.

O filme reflete, em última análise, a necessidade de união da população negra: só assim será possível lutar contra aqueles que a oprimem. “Não podemos pensar em nos unir aos outros até que tenhamos primeiro nos unido entre nós”, disse Malcom X. E, embora essa união seja resultado um processo árduo e doloroso, em Pantera Negra ela parece ser possível.

* O jornalista assistiu ao filme a convite da rede Cinépolis, no Cinépolis Manaíra Shopping, em João Pessoa.


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