Cultura

OPINIÃO: Quando o Hino Nacional representa um atraso

Jamarrí Nogueira relembra episódio traumático de sua infância com execução do hino.




Na segunda metade da década de 1970 eu era estudante do Fundamental I (que, à época, era chamado de Primário). Uma criança com cinco anos de idade. Havia hasteamento da Bandeira Nacional na escola pública onde eu estudava. Sempre às segundas-feiras, éramos obrigados a hastear a bandeira e cantávamos o Hino Nacional à capela. Adorava aquele momento e até conseguia esquecer que havia na escola uma foto em uma moldura gigante com o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici… Não sabia nada a respeito dele, mas sabia que aquela cara me fazia medo…

Tínhamos em casa um compacto simples (pequeno LP, que viria a ser substituído pelo CD e – hoje – pelo streaming) com o Hino Nacional. Eu escutava bastante, porque gostava e gosto de nosso Hino e porque me orgulhava de saber decoradinho a letra. Em uma dessas solenidades de hasteamento, camaradas, me empolguei e – ao final da cantoria à capela – emendei com os acordes finais de nosso hino: ‘tchan-tchan-ran … tchan … tchan!!!’. Fiz e sorri, orgulhoso de mim mesmo.

Dona Zélia e a palmatória

A diretora da escola se chamava Zélia, uma mulher obesa e de cabelos ruços. Sempre estava aos gritos e carregava aquele olhar desprovido de felicidade. Um olhar de cão de guarda… Lembro que lhe faltavam alguns molares e todos os sorrisos. Na gaveta de dona Zélia havia uma palmatória. Nunca vi usando em ninguém!!! Mas haver a palmatória já me intimidava demais!

Pois bem… Ao final do ‘tchan-tchan-ran … tchan … tchan!!!’ dona Zélia se aproximou de mim com aquela cara de cão de guarda bravio. Então, me segurou pelo braço e me arrastou até a diretoria, enquanto espumava de ódio (como de costume). Na sala da diretoria, eu ainda sem entender o que havia acontecido, tive de escutar que eu havia desrespeitado o Hino Nacional.

E dona Zélia tirou a palmatória de dentro da gaveta. Apontou para mim e disse: “Vou te ensinar a respeitar o Hino Nacional!!!”. Eu achava que ia morrer! Juro!!! Ela não me bateu, mas me levou até um dos banheiros da escola e me colocou – ajoelhado – em cima de grãos de milho. Chorei bem baixinho porque tive medo dela reclamar de meu choro… No final das contas, fui punido por um inocente e bem-intencionado ‘tchan-tchan-ran … tchan … tchan!!!’.

Àquela época vivíamos uma ditadura militar no Brasil. Tempos sombrios. Tempo de medo. Tempo de pouca liberdade de pensamento. Tempo de perseguição. Dirigentes burros com a licença para mandar e perseguir. Mais de 40 anos de passaram… Houve a abertura política. Retomamos a democracia. Mas, às vezes me parece que todas essas conquistas estão indo embora…

A carta do Ministro

Esta semana, o Ministério da Educação (MEC) enviou um e-mail para as escolas do país pedindo a leitura de uma carta do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, e orientando que, depois de lido o texto, os responsáveis pelas escolas executassem o Hino Nacional e filmassem as crianças durante o ato. O pedido foi alvo de críticas de educadores e juristas.

Em nota divulgada em seu site, o MEC ressaltou que o comunicado enviado às escolas apresenta um “pedido de cumprimento voluntário”. A pasta afirmou que “a atividade faz parte da política de incentivo à valorização dos símbolos nacionais”. De acordo com o ministério, a carta do ministro continha a seguinte mensagem:

“Brasileiros! Vamos saudar o Brasil dos novos tempos e celebrar a educação responsável e de qualidade a ser desenvolvida na nossa escola pelos professores, em benefício de vocês, alunos, que constituem a nova geração. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”.

Todos sabemos que “Brasil acima de tudo” e “Deus acima de todos” foi o slogan de campanha do atual presidente Jair Bolsonaro. O presidente também usou a mesma expressão para encerrar seu discurso de posse. O slogan adotado pelo governo é “Pátria Amada Brasil”.

Registro em vídeo

Segundo o MEC, os diretores que desejassem “atender voluntariamente o pedido do ministro” poderiam enviar filmagens de trechos curtos da leitura da carta e da execução do hino. O ministério pediu que os vídeos fossem encaminhados por e-mail à pasta e à Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República.

“Os vídeos devem ter até 25 MB e a mensagem de envio deve conter nome da escola, número de alunos, de professores e de funcionários”, informou o ministério em nota. O ministério acrescentou um trecho à nota em seu site informando que fará uma seleção das imagens enviadas e que, antes de qualquer divulgação, vai solicitar autorização legal da pessoa filmada ou de seu responsável.

É um gesto que representa opressão, retrocesso e ausência de bom senso. Tento acreditar que não será essa a marca de Governo, mas as medidas já anunciadas pela atual gestão terminam por conduzir meu pensamento para um caminho contrário… Tenho a impressão de que dona Zélia ressuscitou e que vai me obrigar a cantar o Hino Nacional durante um hasteamento da bandeira… Medo. Muito medo!!!

* Jamarrí Nogueira escreve sobre arte, cultura e comportamento no Jornal da Paraíba aos domingos


Você sabia que o Jornal da Paraíba está no Facebook, Instagram, Youtube e Twitter? Siga-nos por lá. Encontrou algum erro? Entre em contato.