Cultura

Opinião: O prefeito não está nu... Que pena...

Jornalista comenta leis polêmicas sancionadas pelo prefeito de Campina Grande.




De maneira geral, temos um problema com nudez e sexo (que não costumamos ter com violência e injustiça). Já faz muito tempo que violência e injustiça foram banalizadas. Não nos assusta nem impressiona assistir a cenas violentas. Há, inclusive, quem festeje e fomente o exercício da violência.

Nudez e sexo, todavia, são tabus. Temas plenos de dogmas. A violência pode até ser divina. A nudez e o sexo, infelizmente, não. Construções muitas vezes fundamentadas em escrituras sagradas. Basta lembrar do respeito que se tem pelo Anjo Exterminador e da passagem em que Adão e Eva passam a ter vergonha da própria nudez.

Os dogmas são os pais da censura. Em um tempo em que moral e hipocrisia têm sido temperos comuns no alguidar dos comportamentos sociais, Campina Grande parece ter se rendido aos dogmas (reforçando a ideia de que as gestões públicas precisam estar a serviço dos ‘cidadão de bem’ e das ‘famílias tradicionais’).

Duas recentes leis voltadas à religião e sancionadas pelo prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues (PSD), têm gerado discussões sobre censura e Estado Laico. Uma das leis proíbe o “teor pornográfico em exposições artísticas nos espaços públicos do mesmo município e ainda desautoriza as que atentem contra simbolismos religiosos”, publicada no último dia 8. A outra lei que sugere a leitura da Bíblia nas escolas de Campina Grande, sancionada no último dia 2.

Leis que vetariam, por exemplo, a mostra The Renaissence Nude, do Museu Getty, em Los Angeles. Essa exposição explicita como o corpo nu se tornou objeto de arte no século XV. Diversas obras da Renascença seriam vetadas pela Prefeitura de Campina Grande! Um atentado à liberdade de opinião e à liberdade artística.

De acordo com a Lei nº 7.290, aprovada pela Câmara de Vereadores, o teor pornográfico de que trata a publicação são as “expressões artísticas ou culturais que contenham fotografias, textos, desenhos, pinturas, filmes e vídeos que exponham o ato sexual e a performance com atrizes ou atores desnudos”.

Também são barradas exposições que atentam contra elementos e objetos cultuados pelas diversas matrizes religiosas que representam o sagrado e a fé de seus seguidores. O descumprimento da lei implicará multa no valor de 500 UFR-PB, que equivalem a R$ 25.290. A multa será em dobro (R$ 50.580) para os casos de reincidência.

Já a Lei nº 7.280, sugere a leitura da Bíblia nas escolas públicas e particulares de Campina Grande. A publicação diz que essa prática tem o objetivo de trazer o conhecimento cultural, geográfico e científico, além de fatos históricos bíblicos. Sei… Poderiam aprovar, também, a leitura do Alcorão e do Livro Verde do Aiatolá, por exemplo…

A obra ‘Batalha dos Dez Homens Nus’, de Pollaiuolo, gravura que teve grande influência na Europa, certamente seria censurada em Campina Grande. Ela mostra um combate brutal entre dez guerreiros despidos com espadas, flechas, machados e adagas. Tem, ainda, a Virgem Maria de Jean Fouquet (na qual a Virgem é mostrada com os seios descobertos).

A peça ‘Macunaíma’, de Antunes Filho (no fim da década de 1970) jamais receberia permissão de acordo com a lei aprovada pelo prefeito. O filme ‘Sol alegria’, de Tavinho Teixeira, é ‘persona non grata’ e certamente seria vetado pelo poder público campinense. Retrocesso, ignorância e obscurantismo…

Campina Grande perde com essas leis sancionadas. A arte de Campina Grande, sempre tão cosmopolita, sofre. Uma legislação que apequena uma cidade à frente de seu tempo. Uma cidade que tropeça para trás (diante de leis tão reacionárias). O prefeito prefere colocar a cidade em um pretérito perigoso… Ele bem que poderia estar nu, mas – infelizmente – não está… Prefere estar vestido com a roupa da censura.

 

*Jamarrí Nogueira escreve sobre arte, cultura e comportamento no Jornal da Paraíba aos domingos


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