Cultura

OPINIÃO: Não temos coragem de detestar a Baía de Guanabara

Quem não está disposto ao contraditório “vai da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”, defende jornalista.




A Baía de Guanabara é um símbolo do Brasil

A Baía de Guanabara é um lindo símbolo do futuro que desejamos

Jamais tive grandes problemas diante do contraditório.  A opinião contrária termina por me atrair muito mais que as assertivas de concordância. Aperto ainda mais os olhos quando me deparo com um argumento que vai de encontro aos meus pensamentos. Imagino sempre que existe aí uma possibilidade de engrandecimento.

E não trato mudança de opinião como sinônimo de engrandecimento. Nada disso! O argumento contrário pode, inclusive, servir para reforçar o meu pensamento. Importante que estejamos sempre preparados para discutir qualquer tema com pelo menos dois pontos de vista. Pelo menos duas percepções.

Infelizmente, todavia, costumamos exercitar a percepção fechada ao contrário. Nos entrincheiramos em nossas ideias e damos por encerrada qualquer possibilidade de alteração no pensamento. É assim na religião. É assim nos relacionamentos. É assim na cultura. É assim no futebol. É assim na política…

Veja como críticos de arte costumam ter olhos pouco gentis com relação à fuga do que é tradicional. Veja como artistas costumam ter olhos raivosos com relação às críticas. Nos relacionamentos afetivos também é assim: costumamos ter olhos de bonomia para com os nossos. Somos flexíveis com os erros de quem amamos, mas podemos ser impiedosos quando o erro é cometido por quem não amamos…

Se é dos nossos e erra, mão na cabeça em gesto de afago… Se não é dos nossos e erra… “mão na cabeça, vagabundo!”. E sem afago. Uma simpatia que é tudo, menos amor. Está mais para corporativismo. Mães corujas que não têm coragem de dizer que os filhotes são feiosos. Aliás, mães que sequer conseguem enxergar a feiura dos filhotes…

Claude Lévi-Strauss, que detestava a Baía de Guanabara

O antropólogo belga Claude Lévi-Strauss – aquele que “detestou a Baía de Guanabara” – faria 110 anos de idade na quarta-feira (28). Autor do livro ‘Tristes Trópicos’, o pesquisador é mencionado em uma letra de música de Caetano Veloso: O Estrangeiro. A canção dá título ao disco lançado em 1989.

Um dos trechos mais conhecidos do livro é o seguinte: “Um espírito malicioso já definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Poderíamos com mais razão aplicar a fórmula às cidades do Novo Mundo: vão da frescura à decrepitude sem se deterem na antiguidade”.

E disse mais, como se no lugar da língua tivesse uma metralhadora giratória, dando cem tiros de uma vez: “O Pão de Açúcar, o Corcovado, todos esses pontos tão louvados parecem ao viajante que penetra na baía [de Guanabara] como tocos de dentes perdidos nos quatro cantos de uma boca banguela”.

Um estruturalista tão romântico esse Claude Lévi-Strauss!!! Detestava a civilização e se encantava com os indígenas. Mas, acredite, ele detestar a Baía de Guanabara não me parece nem antipático nem maledicente. Importante é que haja a voz da discórdia frente ao coro dos contentes. A Baía de Guanabara é tão poluída quanto linda. E é lindamente banguela como um sorriso de bebê…

Claude Levi Strauss

Claude Levi Strauss

Ainda um bebê

Com pouco mais de cinco séculos, o Brasil ainda é um bebê. Um bebê banguela. À guisa de Claude Lévi-Strauss, poderia dizer que esse bebê é feio, desnutrido e nasceu para ser bandido… Mas, também posso dizer que o sorriso desse bebê é um lindo símbolo do futuro que desejamos. As duas opiniões estão corretas.

Vão parar na Baía de Guanabara resíduos de 12 mil toneladas de lixo dos aterros sanitários próximos. Dezesseis municípios produzem 450 toneladas de esgoto que também vão parar na mesma baía. E ainda há derramamento de óleo e algumas toneladas de metais pesados, fruto dos efluentes industriais. A Baía é linda. O homem a enfeia com a poluição.

Estou certo de que – diferente de Claude Lévi-Strauss – não temos coragem de dizer que detestamos a Baía de Guanabara. É preciso coragem e sinceridade para tanto. Pensamentos como o do antropólogo belga são fundamentais (principalmente quando estamos em zonas de conforto e momentos de pasmaceira).

Um chato de galocha esse Claude Lévi-Strauss. Me faz lembrar dois jornalistas por quem tenho bastante admiração: Astier Basílio e Wagner Lima. Ambos têm muito conhecimento histórico e grande poder de argumento. Dois guias em meio às muitas discordâncias… Definitivamente, aquele que não está disposto a ouvir argumentos contrários vai da “barbárie à decadência sem conhecer a civilização”.

* Jamarrí Nogueira escreve sobre arte e cultura no Jornal da Paraíba aos domingos.