Cultura

OPINIÃO: Mostra de Teatro, Dança, Circo e... Resistência

Jamarrí Nogueira fala da 18ª Mostra Estadual de Teatro, Dança e Circo na Paraíba.




Os espaços de cultura são historicamente espaços de resistência. A arte e os artistas carregam, de maneira geral, uma essência libertadora (que leva ao ‘incômodo’ e à reflexão, à força centrífuga da rebelião e ao exercício dialético do protesto). “Se eu contar o que é que pode o cavaquinho”, você vai entender bem o que podem  a voz estentórea e o improviso, o padedê e o espacate, o trapézio e os malabares.

Tudo isso foi visto na noite da última sexta-feira, no teatro Santa Roza, no Centro de João Pessoa, na abertura da 18ª Mostra Estadual de Teatro, Dança e Circo, realizada pela Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc). Houve atraso no horário programado para início do evento sim, mas os discursos não foram nada atrasados…

E começou com a presidenta Nézia Gomes, da Funesc, que destacou a importância da Mostra ser retomada quase sete anos depois da última edição. Ela não deixou de destacar, inclusive, a força da arte produzida na Paraíba e a relevância de “ninguém soltar a mão de ninguém”. Seu discurso politizado abriu uma noite emblemática com relação à necessidade de resistência.

O primeiro espetáculo da noite foi ‘Bagaço’, do +Um Coletivo de Arte, de João Pessoa. O grupo apresentou uma coreografia que homenageou um outro espetáculo paraibano, ‘Caldo da cana’, de 1984. No palco, além da coreografia, música ao vivo e exibição de vídeos. Ao final da apresentação, o recado da resistência, em alto e bom som, foi dado pelos integrantes do grupo: “Não à reforma!” (em uma clara alusão às reformas da previdência e trabalhista).

É bem verdade que ‘Bagaço’ tem momentos enfadonhos (provocados, inclusive, pelo uso de hiperlinks e pluralidade de linguagens cênicas). Ainda assim, não deixa de ser artisticamente provocativo, respeitoso para com aqueles que pertencem à história da dança paraibana e emocionante.

Logo em seguida, o segundo espetáculo da noite otimizou e potencializou o exercício da resistência. ‘Alegria de náufragos’ foi apresentado para uma plateia lotada. Nave e camarotes (primeiro e segundo andares) ocupados! Rafael Guedes, Cely Farias e Thardelly Lima incendiaram a plateia com protestos e críticas ao atual governo de Jair Bolsonaro.

Houve – em momento de improviso – citação do polêmico ‘golden shower’. Uma espectadora sugeriu como tema de improviso ‘como Bolsonaro chegou ao poder’. ‘Lula livre’ também esteve em cena. Ironias com relação às críticas contra a Lei Rouanet também não foram esquecidas. Faltou apenas mencionar a prisão de Michel Temer. Renderia um excelente caco ao espetáculo.

Ainda assim, ‘Alegria de náufragos’ mostrou-se extremamente afinado e – tivesse a Mostra Estadual caráter competitivo – seria franco favorito à premiação de Melhor Espetáculo de teatro. É uma peça interativa, profundamente engraçada e adequada ao panorama político que, neste momento, enfrentamos. Anton Tchekov, russo responsável pelo texto em que foi baseada peça, parece ter feito a obra para o Brasil que temos hoje.

Quem encerrou a série de espetáculos da noite foi a companhia Trupeçando, de Campina Grande. Jovens artistas da arte da palhaçaria cumpriram com o propósito de divertir a plateia, em uma apresentação feita na frente do teatro Santa Roza. Nem mesmo os disparates de um bebum atrapalharam a encenação. Muito pelo contrário, termino servindo de ‘caco’ para a apresentação. E, mais uma vez, a ‘resistência’ salvou a noite…

O retorno da Mostra Estadual de Teatro, Dança e Circo é prova de que estamos vivos. As artes cênicas paraibanas pulsam resistência. Até o próximo dia 30, no teatro Santa Roza, dezenas de espetáculos e oficinas estarão focados nesse ponto: o que a arte pode fazer para que sejamos, cada vez mais, resistência? Ir ao teatro já é um bom exercício. Vá ao teatro…

* Jamarrí Nogueira escreve sobre arte, cultura e comportamento no Jornal da Paraíba aos domingos


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