Cultura

OPINIÃO: 'Ladrão a gente mata é com tiro...'

‘Impossível ler ‘Morte do leiteiro’ e não lembrar de tantos casos de preconceito.




Há mais racismo que leite no Brasil. Um país sedento de leite e, racista, sedento de sangue. Aquele poema de Carlos Drummond de Andrade explicitou que essa é uma nação que acredita ser correto afirmar que “ladrão se mata com tiro”. Impossível ler ‘Morte do leiteiro’ e não lembrar de tantos e tantos casos de preconceito e racismo que levam à morte de inocentes. Gente inocente como o leiteiro de Drummond, que entregava “leite bom para gente ruim”.

O leiteiro de Drummond era morador da Rua Namur, Bairro Vila Valqueire, no Rio de Janeiro. Apenas 21 anos de idade. Trabalhador. Sabemos tão pouco a respeito dele. “Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber”. O leiteiro morto no poema de Drummond tem o mesmo perfil de um jovem vendedor assassinado semana passada em um rodízio de pizza, em um bairro nobre da capital paraibana.

>>> Veja todas as colunas de Jamarrí Nogueira

Fausto Targino de Moura Júnior tinha apenas 25 anos de idade, um pouco mais velho que o leiteiro de Drummond. Estava no rodízio de pizza para comemorar o aniversário de seu chefe. Uma confraternização! Ele e os amigos foram recebidos à bala porque foram ‘confundidos’ com assaltantes, conforme o autor dos disparos (um policial militar que estaria prestando serviços de segurança à empresa, que nega vínculos com o militar)…

É muito surreal… Duvido que alguém apresente o caso – no Brasil – de um jovem loiro, branco e de olhos azuis, que foi confundido com assaltante e, consequentemente, foi assassinado a tiros. As estatísticas mostram que negros e cidadãos da periferia são as maiores vítimas da violência policial. Uma violência baseada no racismo. Uma violência defendida por uma sociedade que tem medo e raiva dos negros e dos pobres.

Quem foi o ‘mandante’ do crime?

O policial militar puxou o gatilho, matando Fausto Targino de Moura Júnior e ferindo gravemente outro jovem de 22 anos. Mas, quem deu a ordem para ele foi esse pensamento crescente de que ‘ladrão se mata com tiro’. Pensamento reforçado pela ideia de que negros e pobres são bandidos. Tiros que mataram Fausto e feriram outro jovem e só não fizeram uma terceira vítima porque ela – sortuda! – implorou, em prantos, por sua vida. A ficha do PM caiu. Ele abraçou a vítima, pediu perdão e fugiu em uma moto.

Era noite de quarta-feira, dia 12. Perto das 19h. Fausto Targino de Moura Júnior estava com um grupo de funcionários de uma loja onde ele trabalhava como vendedor. Uma loja de capinha de celular no Centro. Uma ‘confra’ para comemorar o aniversário do chefe. Não estavam armados. Não escondiam os rostos. Eram negros. E isso – para muitos – representa uma atitude suspeita. Ser negro é um perigo…!!!

O jovem assassinado foi sutil em seus passos. Passos maneiros e leves. Tinha pressa apenas de comemorar. Não houve vaso de flor no caminho nem ‘cão latindo por princípio ou um gato quizilento’. O policial militar – que muitos consumidores dizem ser segurança da pizzaria – levantou os olhos em pânico ainda assim porque ‘ladrões infestam o bairro’. Assim como no poema, o PM não quis saber de mais nada. O revólver na cintura gaveta saltou para sua mão. O pensamento na cabeça: “Ladrão? Se pega com tiro”. E os tiros na noite liquidaram o vendedor.

“Meu Deus, matei um inocente!”

O policial militar também perdeu o sono de todo e fugiu pela cidade. “Meu Deus, matei um inocente!”. A bala que muitos acreditam ser para matar bandidos também mata gente inocente. “Também serve pra furtar a vida de nosso irmão”. Chamaram a ambulância. Chamaram a Polícia. A propriedade estava salva e a noite geral prosseguia… O jovem vendedor?!?! “Estatelado, ao relento, perdeu a pressa que tinha”. Nem borda de chocolate nem de catupiry… no canto da boca escorria sangue. É noite na cidade e estamos muito (muito!) longe da aurora…

Amigos e familiares de Fausto Targino de Moura Júnior estão na batalha para que ele não se torne apenas uma estatística. Uma luta para que esse caso não seja apenas mais um número frio como um cadáver. É bastante claro que o assassinato de Fausto envolve algum grau de racismo. A sociedade tem medo. A sociedade branca tem medo. E tratou de eleger como inimigo a população negra. Fausto só queria comemorar na pizzaria. Que esse caso não acabe em pizza…

* Jamarrí Nogueira escreve sobre arte e cultura no Jornal da Paraíba aos domingos.


Você sabia que o Jornal da Paraíba está no Facebook, Instagram, Youtube e Twitter? Siga-nos por lá. Encontrou algum erro? Entre em contato.