Cultura

OPINIÃO: 'Bacurau' mistura Glauber Rocha e Tarantino em um Nordeste contra o fascismo

Para colunista, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é imperdível.




‘Bacurau’ entra em cartaz no dia 29 de agosto (Foto: Reprodução)

A voz de Gal Costa cantando ‘Não identificado’ em um cenário onde aparecem astros e satélites. Do espaço a câmera faz um zoom até o sertão pernambucano em um ‘futuro próximo’… É assim que começa um dos melhores filmes da contemporânea produção brasileira. E isso é o mínimo que se pode dizer a respeito de ‘Bacurau’, longa-metragem de ficção dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. ‘Bacurau’ é um filme que não pode deixar de ser visto. Imperdível mesmo!!!

Temendo cair no spoiller, direi apenas que as reviravoltas, a psicodelia e os momentos de vingança do filme são seus pontos altos. ‘Bacurau’ é uma obra política e de resistência. Não trata os interioranos do sertão como jecas desinformados, explicitando ainda a máxima de que o sertanejo é antes de tudo um forte.

Não à toa, o trabalho tem feito um estardalhaço onde é exibido, inclusive no Festival de Gramado e no Festival de Cannes (onde indicado à Palma de Ouro recebeu o Prêmio do Júri). Quarta-feira passada, ‘Bacurau’ teve pré-estreia em João Pessoa, com a presença dos diretores, parte da equipe técnica e parte do elenco, incluindo Sônia Braga. Plateia lotada para aplaudir aquele que pode vir a ser o filme brasileiro indicado ao Oscar…

Além de Sônia Braga e Barbara Collen  (que já haviam sido dirigidas por Kleber Mendonça Filho em ‘Aquarius’ – outro filme que esteve em Cannes), o elenco de ‘Bacurau’ conta com o alemão Udo Kier (‘Suspiria’, ‘Berlin Alexanderplatz’, ‘Garotos de programa’), Karine Teles (‘Que horas ela volta?’ e ‘Benzinho’) e Silvero Pereira (mais conhecido pela atuação na novela ‘A força do querer’ no papel do motorista particular Nonato, e também pela atuação na peça ‘BR Trans’).

O elenco também tem os paraibanos Thardelly Lima (‘Beiço de estrada’), Buda Lira (‘Sol alegria’), Suzy Lopes (‘Beiço de estrada’), Jamila Facury, Ingrid Trigueiro (‘Rebento’) e Danny Barbosa, todos eles com participações importantes e bem dirigidos durante o filme inteiro. O longa teve gravações no Sertão do Seridó, divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba, tendo como base a cidade de Parelhas.

Todo o elenco paraibano de ‘Bacurau’ (Foto: Divulgação)

Também no elenco estão Jonny Mars, Antônio Saboia, Edilson Silva, Thomás Aquino, Wilson Rabello, James Turpin, Fabiola Liper, Clebia Sousa, Brian Townes, Valmir do Côco, Rubens Santos, Luciana Souza, Jr. Black, Carlos Francisco, Uirá dos Reis, Allison Willow, Eduarda Samara e Rodger Rogério. A demiúrgica Lia de Itamaracá também integra o elenco. O ponto de partida do filme é, inclusive, a morte da quase centenária dona Carmelita, interpretada por Lia. Após esse falecimento, moradores percebem que Bacurau não consta mais nos mapas. E logo em seguida uma série de ataques e assassinatos é registrada na localidade.

‘Bacurau’ começou a ser elaborado ainda em 2010, mas é impressionante como combina com o atual panorama político brasileiro. O filme é sobre a importância da resistência frente aos grupos fascistas e armamentistas. É sobre a necessidade de lutar contra a opressão. É um filme sobre Davi e Golias… Um filme profundamente político que tem o sertão nordestino como cenário para aventura, faroeste, ficção científica e terror gore.

É uma obra densa com cenas muito pesadas e violentas. Também é uma obra com pontos cômicos e muitas referências do universo cinematográfico nacional e internacional. A crítica aponta que ‘Bacurau’ é um somatório de referências como David Lynch, ‘Por um punhado de dólares’ (1964), ‘Os sete samurais’ (1954), ‘O albergue’ (2006), ‘Tieta do Agreste” (1996), ‘Assalto ao 13º DP’ (1974) e Clint Eastwood. Também ficam evidentes as citações de filmes sobre o cangaço e outras obras nacionais como ‘Abril despedaçado’. Em tempo: ‘Mad Max’, ‘Matar ou morrer’, Glauber Rocha e Tarantino são influências em ‘Bacurau’.

E misturando Tarantino e Glauber Rocha, o filme é um soco no estômago! A lentidão da narrativa é proposital. Tão proposital quanto a dureza das cenas e o caráter tenso dos diálogos. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles acertaram na dose. Fizeram um filme para ser assistido por um Brasil que precisa aprender mais sobre resistência e ação. Repito: ‘Bacurau’ é um filme imperdível, sendo um dos melhores (senão o melhor) da contemporânea produção brasileira.

Antes dos créditos finais, quando chega o momento de enterrar os mortos na batalha, ainda tem espaço para a leitura da lista de vítimas. Destaque para a citação do sindicalista João Pedro Teixeira e também de uma Marielle e de uma Marisa Letícia… Ops!!! Melhor parar para evitar o spoiler…! Vá ao cinema e não deixe de ver ‘Bacurau’!

*Jamarrí Nogueira escreve sobre arte, cultura e comportamento no Jornal da Paraíba aos domingos

 


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