Cultura

OPINIÃO: Artistas paraibanos festejando o golpe militar de 1964

‘Artista precisa ter alto nível de capacidade de reflexão e tem de ser inteligente!’




Quando criança meu acesso a artistas do teatro e da música da Paraíba foi facilitado por um primo muitíssimo imerso na cena cultural da Paraíba. Luiz Carlos Cândido – um homem das artes cênicas e das produções musicais – sempre recebeu em sua casa uma enorme trupe de artistas. Eu, miúdo, era frequentador daquele ponto de encontro.

Ouvi de perto, intrometido e curioso, as conversas de gente que se tornaria sucesso na cena cultural paraibana e também da midiática cena nacional. Formei – à época – um conceito a respeito de artista: precisa fumar, precisa beber e não pode ser envergonhado. Mais que isso: precisa ter alto nível de capacidade de reflexão e tem de ser inteligente!

Ainda mais: precisa ser de esquerda e defender a democracia e políticas públicas em defesa das minorias. Um pouquinho mais: precisa não ser machista e misógino. E, definitivamente, não pode defender nem festejar atos de censura contra a liberdade de expressão! Todos eles – à época – gritavam por ‘Diretas Já!’.

Que infantilidade! Somente os meus poucos anos e minha leseira congênita poderiam imaginar que um artista não pode defender opressores. Alguns daqueles que frequentavam ou que eram mencionados no ambiente cultural montada debaixo de um jambeiro da casa de Lula Cândido (a casa de tia Creusa e de Tio Monteiro) continuam talentosos, mas se tornaram – politicamente – asquerosos.

Artistas divididos

A história mostra que há um grande número de artistas que trabalharam e defenderam lideranças políticas profundamente opressoras. Artistas que defenderam ditaduras sangrentas. Artistas que defenderam gestores capazes de legitimar a violência e o desrespeito. Artistas que semeiam a ideia de que o governo não deve governar para todos…

Leni Riefenstahl foi a cineasta do nazismo difundido por Hitler. Alexander Rodchenko trabalhou a serviço do governo russo após a Revolução de 1917. A história mostra dezenas de grandes artistas plásticos a serviço dos opressores em diversas partes do mundo e em diversos tempos. Nem me assusto mais…

Hoje – adulto – sei bem que não é um problema ser o artista de direita. Não mesmo! Hoje – adulto – sei bem que o artista não precisa buscar o exercício do devir e pode sim defender pontos que entrem em divergência com o que chamamos de tradição. Um artista não precisa, claro, ser moderninho…

31 de março comemorado

Mas, o artista – que não precisa mirar o futuro moderninho – não deve defender o retrocesso! Muitas décadas depois da formação daquele conceito infantil de ‘artista’ me deparo com artistas defensores de medidas retrógradas e opressoras de um governante que legitima a violência e o desrespeito. Artistas paraibanos (principalmente na música e na literatura) que apoiam o presidente Jair Bolsonaro e suas medidas nada populares.

Pior que isso: artistas paraibanos que apoiam uma sociedade armamentista e que acreditam que o Brasil não precisa ser tão democrático assim. Pasmem: alguns deles estão comemorando – neste momento – o 31 de Março. Poderiam até fazer um ‘grande encontro’… Houve até postagens em defesa dos militares. Alguns, mais velhos, se perderam no tempo. Outros, mais jovens, enveredaram pelo caminho errado.

Artistas paraibanos que defendem as ideias e propostas políticas de Jair Bolsonaro. Têm Nova York como parâmetro de paraíso. Acreditam em ideologia de gênero e pensam que a escola não deve ser um ambiente politizado. Também acham que o cidadão de bem precisa andar armado e que a maioridade penal precisa ser reduzida.

Alguns deles, através de postagens nas redes sociais, já colocaram em xeque a ‘existência’ do golpe e da ditadura militar. A alegação é de que tudo não passa de uma invenção da esquerda. Reforçam que o 31 de Março representa uma data de libertação e que teria sido bem pior se os militares não tivessem assumido o poder. Garotas e garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones e que hoje amam Bolsonaro.

‘Tenho dó’

Admito que já tive raiva desses artistas, mas hoje tenho apenas dó. A mesma dó que tenho com relação à brilhante intérprete baiana Nana Caymmi (eleitora de Jair Bolsonaro e admiradora de ACM – o ‘Toinho Malvadeza’), que detonou Caetano Veloso, Gilberto Gil (seu ex-marido) e Chico Buarque.

A mesma Nana Caymmi que esteve, em 26 de junho de 1968, na Passeata dos 100 mil, no Rio de Janeiro. De braços dados com Gilberto Gil e Caetano Veloso, ao lado de Edu Lobo, Chico Buarque, Renato Borghi, José Celso Martinez e Paulo Autran. Onde foi parar aquela Nana? Onde foram parar aqueles artistas que defendiam a liberdade, a justiça e a democracia e que cantavam debaixo do jambeiro…?

Já morreram e nem sabem… Porque artista pode, sim, ser de direita ou de esquerda e também pode trabalhar em projetos de governo… Só não pode ser idiota e defender retrocessos políticos e sociais… Só não pode estar na contramão da história nem a serviço da maldade institucionalizada. Porque ser artista é saber o que existe de fato entre a justiça e a bondade…

* Jamarrí Nogueira escreve sobre arte, cultura e comportamento no Jornal da Paraíba aos domingos


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