Cultura


"O governo não faz p... nenhuma", desabafa Erasmo Carlos

Com mais de 50 anos de estrada, artista canta em João Pessoa no sábado (19).




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Sem papas na língua, Erasmo se diz antenado nas novas tecnologias e em tudo o que acontece no mundo

O gigante não é só gentil, ele também é grato. E quem estende a classificação é o próprio gigante Erasmo Carlos, que adotou a alcunha em seu último disco, ‘Gigante gentil’ (2014), para mostrar que, além de ser um cara afável, observa tudo de cima, com os olhos voltados para o futuro, e só tem a agradecer pelo que conquistou em mais de 50 anos de estrada.

São alguns fragmentos desta estrada que os pessoenses vão ter a chance de ver ao vivo no show que o Tremendão apresenta no Teatro Pedra do Reino, localizado no Centro de Convenções de João Pessoa, neste sábado (19), às 21h.

“Quando eu comecei, eu queria muito pouco. Como sou filho único e fui criado sem pai, eu só queria comprar um teto para a minha mãe, mas consegui na vida bem mais do que imaginava. Então eu só agradeço e não peço mais nada hoje em dia porque estou satisfeito”, diz ele pelo telefone, em entrevista ao JORNAL DA PARAÍBA.

E os agradecimentos do cantor, multi-instrumentista e autor de mais de 500 composições vêm tendo uma abrangência ainda maior recentemente. Isso porque Erasmo tem acompanhado o interesse pela sua obra se renovar, sobretudo depois de ter sido premiado no Grammy Latino como Melhor Álbum de Rock pelo ‘Gigante’.

“Quando eu ganhei o Grammy, eu fiquei feliz demais, cara. Porque é um prêmio que eu persigo há muito tempo – já fui indicado mais de cinco vezes e jamais havia ganhado”, menciona. “O melhor é que foi por um trabalho que fiz agora. Não é saudosista, nem um prêmio pelo conjunto da minha obra, é por algo atual. Fiquei contente de estar moderno e contemporâneo”, celebra.

Independentemente dos seus 76 anos, a contemporaneidade de Erasmo se sobressai e fica explícita principalmente pela sua relação com as tecnologias e com a internet. Segundo ele, é essencial para alguém que se propõe a continuar sendo lembrado e a atingir diferentes públicos se manter atualizado e estar aberto a novas linguagens.

“Entro nas redes sociais, sei o que se passa no mundo, estou atendo às novidades, ao que os jovens falam… Eu aprendo com eles pra caramba, sabe, bicho? E procuro usar isso, inclusive na minha música, que é o que eu sei fazer e me divirto fazendo, graças a Deus”, ressalta, citando o Twitter e o Instagram como exemplos de sua presença na internet, sem deixar de relatar o impacto inicial ao se deparar com ofensas e comentários negativos sobre ele na web.

“Ao mesmo tempo em que fiquei maravilhado com as possibilidades que ela oferecia, fiquei assustado com a franqueza e a falta de educação de algumas pessoas. Fiz a canção ‘Gigante gentil’ como uma resposta a isso. Mas hoje em dia eu já estou acostumado e danço conforme a música”, diverte-se.

Politicamente incorreto?

Erasmo é afiado e escancara suas visões de mundo para quem quiser ouvir. Por isso, não é incomum encontrar em sua obra temas controversos, como drogas e sexualidade. Eles estão expostos em letras como ‘Maria Joana’, música sobre maconha censurada nos anos 70, a recente ‘Kamasutra’, sobre posições sexuais, e naquela que é um destaque, tanto de forma positiva, quanto negativa: a famosa ‘Mesmo que seja eu’.

Esta última, canção de 1982 e uma de suas parcerias com Roberto Carlos presente no disco 'Amar pra viver ou Morrer de amor', é considerada por muitos como machista. E não é por acaso. “Antes mal acompanhada do que só, você precisa de um homem pra chamar de seu, mesmo que esse homem seja eu”, é o que diz apenas um trecho da composição.

Sobre isso, o artista diz não ligar para as críticas nem para a patrulha do politicamente correto. “O correto é você ter coerência com seu pensamento”, opina. “Eu grito com as minorias, levanto as bandeiras que elas levantam contra injustiças, intolerâncias. Sou um homem a favor dessas minorias”, defende-se, apesar de não dar o braço a torcer quanto à composição polêmica.

“Eu não ligo, vou continuar fazendo milhões de 'Mesmo que seja eu'. Nao me deixo influenciar e até fiquei surpreendido quando soube, por exemplo, que ela se tornou o hino das lésbicas. Você sabia disso? Quando eu fiz um show no extinto Carandiru, elas cantavam em coro, dançavam juntas, diziam que era o hino delas. Depois a Marina Lima gravou e multiplicou essa fama, o que me deixou muito feliz e gratificado”.

Cultura e memória

Personagem retratado no filme 'Minha fama de mau', baseado na autobiografia homônima e com estreia prevista para o início de 2018, Erasmo afirma que considera importantíssimas iniciativas como esta que visam a resgatar a memória de figuras importantes para a cultura nacional – mesmo que o país não ofereça base nem suporte para isso.

“Um povo sem cultura é um povo sem direção. Você tem que saber da sua cultura para se situar e defender as coisas com mais convicção”, ressalta. “Mas o problema é que o país não tem dinheiro nenhum para financiar sua cultura, não tem um filme forte, tem uma musica linda e rica, mas não tem impulso... O governo não faz porra nenhuma pela música, pelo cinema, pelo teatro, nem para nada”, desabafa.

Apesar dos problemas, a solução, para ele, é simples e está na juventude. “Tem que votar melhor e procurar votar em políticos jovens, porque os antigos trazem vícios. Eles já vêm viciados em pouca vergonha, desonestidade, falcatruas, esquemas armados. Os jovens é que estão com a cabeça mais fresca”, acredita. 

Um whisky para esquentar

Embora tenha uma larga experiência nos estúdios e nos palcos, Erasmo garante que quando se apresenta é como se estivesse começando. Energia, ele tem. O que pesa são os imprevistos e o calor do público, que nunca são os mesmos, conforme o artista. “Sempre sinto aquele frio na barriga porque é igual a fazer amor, parece que é a mesma coisa todo dia, mas é diferente”, explica.

“O som não é a mesma coisa, as pessoas são diferentes, as cidades são diferentes, a emoção é outra”, complementa, para depois corrigir sua definição de nervosismo. “Dizem que é frio na barriga, mas não é frio não, é dorzinha mesmo. Nessas horas, tomo meio copo de whisky e fico preparado para o show”.

Aliás, a respeito do show que vem para João Pessoa, ele não esconde que pretende ser generoso com os sucessos antigos, que embalaram gerações de fãs e admiradores. “Como não vou há muito tempo aí, vou mesmo é cantar minhas músicas mais conhecidas, uma ou outra coisa de agora, mas mais o que fiz nos anos 70, 80”, finaliza, nomeando alguns dos hits que o público pode esperar. “Vai ter 'Mulher', 'Sentado à Beira do Caminho', Jovem Guarda, ou seja, um apanhado geral da minha vida”. E que vida!

 

Serviço:
Show de Erasmo Carlos
Quando: Sábado, dia 19 de agosto, às 21h
Onde: Teatro Pedra do Reino, Rod. PB-008, Km 5, S/N - João Pessoa/PB
Ingressos: R$ 120 (plateia inteira) | R$ 60 (plateia meia) | R$ 100 (balcão inteira) | R$ 50 (balcão meia) | R$ 80 (intresso literário, mediante doação de livro)
Vendas: Site Tudus e Popótamus Buffet, na Rua Santos Coelho Neto, 348 - Manaíra, João Pessoa/PB