Cultura

Dia da Consciência Negra: Escurinho e a arte como forma de militância

Artista conversou com o JORNAL DA PARAÍBA sobre racismo e a música como meio de afirmar a cultura afro-brasileira.



Divulgação/PMJP/Rafael Passos
Divulgação/PMJP/Rafael Passos
Escurinho chegou à Paraíba em 1970, dando início a carreira artística em Catolé do Rocha

"Cada um se revolta com as armas que tem, eu tenho a minha música". É assim que o cantor, instrumentista e compositor Escurinho, nome artístico do pernambucano radicado na Paraíba Jonas Epifânio dos Santos Neto, diz enfrentar o racismo. Segundo ele, o problema ainda faz parte de seu cotidiano e precisa ser debatido, não apenas no Dia da Consciência Negra, comemorado neste domingo (20).

Professor de percussão no Centro Educacional do Adolescente (CEA), da Fundação Estadual da Criança e do Adolescente Alice de Almeida (Fundac), em João Pessoa, Escurinho analisa o preconceito como um dos principais elementos que interligam os problemas sociais vigentes no país.

"Eu trabalho com jovens infratores e a maioria é negra", conta. "Eu converso muito com eles, apesar de as minhas aulas não passarem por esses assuntos, e percebo que eles vêm dessa mesma sociedade, do preconceito. E a revolta passa por isso. Eles usam as armas que eles têm, os recursos que eles têm, as drogas, o crime", aponta.

Nascido em Serra Talhada, cidade do interior de Pernambuco, Escurinho chegou à Paraíba em 1970, dando início a carreira artística em Catolé do Rocha. No Sertão do Estado, fez parte da banda 'Ferradura' com Chico César, grupo que se destacou por vencer diversos festivais pelo país.

"Quando eu era mais novo, eu era muito fã de Gilberto Gil, de Milton Nascimento, e não entendia como os racistas iam no show deles e permaneciam racistas", conta. "Para mim, o racismo é muito velado. As pessoas convivem com você diariamente, mas são racistas. É algo que não acontece de forma explícita", acrecenta.

Ele, que confessa fazer questão de viver a rotina da cidade de João Pessoa, sobretudo observando as pessoas nas ruas, afirma que percebe nitidamente a separação que esse racismo velado traz. "No ônibus isso é muito claro. E esse racismo, muitas vezes, vem do medo da violência, porque as pessoas associam o negro à violência. Acham que essa é a justifica, mas falta entendimento, a aceitação do outro", comenta.

Para Escurinho, a música é um dos principais agentes da exaltação da cultura afro-brasileira e uma forma de militância que gera resultados concretos. "Como artista, vou procurar sempre estar no palco, levar ao máximo minha arte para escolas, associações de moradores, grupo de estudantes. Minha contribuição vai ser sempre essa, a de levantar a bandeira contra o preconceito", revela. "A mudança não vem na hora, mas vem".