Cultura

Daniela Mercury diz que o Nordeste não se leva tão a sério como deveria

Artista se apresenta neste sábado (9)  na capital com a turnê "A Voz e o Violão". 



Divulgação/Célia Santos
Divulgação/Célia Santos
Daniela diz que ainda almeja muito mais do que conquistou em sua trajetória bem sucedida

“Não gosto de passar despercebida, eu quero existir”. Atenta, afiada e cheia de energia, Daniela Mercury vê o mundo como um grande palco. Nele, ela ocupa espaços e faz o que mais gosta: se expressa de todas as formas que pode, sempre autêntica e da sua maneira, como gosta de frisar. Prestes a completar 51 anos, que serão comemorados em João Pessoa neste sábado (9) no show 'A Voz e o Violão', realizado no Teatro Pedra do Reino, a cantora diz que ainda almeja muito mais do que conquistou em uma trajetória bem sucedida no Brasil e no exterior.

“Eu precisaria de muitas vidas para fazer tudo o que quero, uma vida só não basta”, comenta. “Sou inquieta, cheia de desejo, com muita vontade de ainda usar toda a minha experiência de vida”, acrescenta. E essa experiência acumulada abrange uma carreira que se iniciou precocemente, quando ela tinha 15 anos e cantava em bares – isso já com um repertório de ritmos variados, sua marca registrada. “Tenho uma consciência muito grande da música que eu faço porque sou uma mulher muito crítica, uma grande observadora do mundo”, ressalta.

O mundo que a artista observa, no entanto, nem sempre é correto e justo, segundo ela. “Sinto que ainda há uma incompreensão enorme do que o axé significa”, exemplifica, citando o gênero pelo qual é mais conhecida. “Não por má vontade, mas por desconhecimento, porque o Norte e o Nordeste não ocupam os espaços críticos, não se olham com mais responsabilidade, seriedade, grandiosidade. A gente não se leva tão a sério como deveria”, aponta.

Para ela, apesar disso, uma nova geração de artistas tem fortes chances de reverter esse quadro. E entre os citados está o grupo caruaruense Fulô de Mandacaru, vencedor do reality show musical Superstar, da Rede Globo, do qual Daniela foi uma das juradas. “Se você parar para pensar, não encontra músicas de forró novas que foram lançadas recentemente. E é massa quando você vê uma canção super forte deles, como o galope e o frevo”, menciona. “Que bom que vou ter músicas novas para cantar, porque a gente tem que produzir repertório, os gêneros precisam de fôlego”.

Além das bandas que teve oportunidade de conhecer no programa, Daniela também se considera antenada sobre os novos nomes que surgem no mercado e assume seu lado fã. “Acho Karina Buhr incrível. Sempre quando encontro com ela, falo, comento nas redes sociais”, diz, complementando que vem escutando ultimamente Tulipa Ruiz, Liniker, BaianaSystem, Lucas Santana e alguns cantores de Cabo Verde, país que tem forte relação com ela.

Engajada
Casada desde 2013 com a jornalista Malu Verçosa, Daniela não esconde sua veia politicamente engajada, sobretudo quando o assunto é os direitos dos homossexuais. Ela salienta que acha imprescindível que artistas se posicionem a favor do que acreditam, mesmo que possam enfrentar resistência do público. “O artista é um ícone da sociedade, ele é um ser que é meio de transporte de obras artísticas e, obviamente, um observador, um tradutor e um profeta, muitas vezes, porque está observando o lado humano nosso, que é o que diz tudo”, explica.

Daniela e a esposa Malu Verçosa após a cerimônia de casamento que foi realizada em 2013. (Foto: Divulgação/Célia Santos)

Relação com a Paraíba
Daniela diz que tem uma cumplicidade muito grande com a Paraíba. E o carinho dela pelo estado vai muito além da relação com os fãs e com a cultura. Isso porque as três filhas adotadas pela artista com a esposa Malu – Márcia, de 17 anos, Alice, de 13, e Ana Isabel, de 5 – são paraibanas. “Esse vínculo é muito forte, mas acredito que o vínculo musical também é”, comenta. “Minha carreira não existe sem o Nordeste, ela é uma afirmação do Nordeste. Apesar de a gente separar a Bahia da Paraíba, do Rio Grande do Norte, do Ceará, eu vejo a gente com uma língua muito próxima, em termos do que a gente é, das coisas que nos tocam afetivamente”.

As filhas adotivas de Daniela Mercury com a jornalista Malu Verçosa são da Paraíba. (Reprodução/Instagram)

Consumo de música
No final de 2015, Daniela lançou seu mais recente disco de estúdio, Vinil Virtual. O álbum, com uma capa polêmica em que ela aparece nua com a esposa e cuja inspiração veio de uma foto de John Lennon com Yoko Ono, traz um lado mais autoral da artista. Ligada às novas tecnologias, que se fazem presentes inclusive no “virtual” que dá nome ao trabalho, ela garante que não vê o aumento do consumo de música por streaming como uma ameaça à indústria musical. “A princípio, eu sou a favor de tudo, porque acho que é impossível frear as revoluções tecnológicas. Mas a questão é que é preciso encontrar formas dessa indústria sobreviver, porque senão a gente não consegue produzir”.

Voz e violão
Acostumada a shows imponentes, em grandes locais ou em trios elétricos, Daniela traz a João Pessoa uma turnê mais intimista e apresentada em teatro, algo inédito para ela no Brasil. “É um show que mistura músicas, dança e stand up com textos meus, que contam um pouco da história da minha vida no palco, do meu olhar sobre o país”, explica, revelando que a noite será ainda mais especial por conta de seu aniversário, que será comemorado antecipadamente na cidade. “Não tem nada mais precioso do que estar com quem gosta da gente. Quero encontrar todo mundo”, finaliza. 

Daniela durante apresentação do show "A Voz e o Violão", que mistura grandes sucessos com outras canções da MPB. (Foto: Divulgação/Célia Santos)