Cultura

Roberto Carlos, aos 75, ainda não é uma unanimidade nacional

No aniversário do Rei, o JORNAL DA PARAÍBA escolhe músicas antológicas e comenta sua trajetória iniciada há quase seis décadas 



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Roberto Carlos numa foto de 2015 durante a gravação no estúdio londrino de Abbey Road

Roberto Carlos chega aos 75 anos nesta terça-feira (19). Mas o título de Rei, quase seis décadas de carreira e milhões de discos vendidos não foram suficientes para transformá-lo em unanimidade nacional. Uma parcela significativa da “intelligentzia” ainda resiste ao óbvio: que o capixaba de Cachoeiro do Itapemirim é um dos grandes nomes da música popular que os brasileiros produziram.

Ter inserido algumas dezenas de canções na memória afetiva de milhões de pessoas é um dos méritos que ostenta. Há outros: o carisma extraordinário, o domínio absoluto da performance ao vivo, a qualidade da emissão vocal, que deve tanto à contenção adotada por João Gilberto. E, claro, o extenso repertório pop, formado pelas músicas que compôs com Erasmo Carlos e por canções de outros autores nas quais imprimiu a sua marca.

Profissionalmente, Roberto Carlos começou como crooner de uma boate no Rio de Janeiro, em 1959. Queria ser cantor de Bossa Nova. Não conseguiu. Mais tarde, à frente da Jovem Guarda, fez do rock a sua praia. Em seguida, aderiu à soul music. Afinadíssimo, com canto intimista e sensível, amadureceu junto com seu público. Foi autor e intérprete de baladas sentimentais, confessionais, eróticas. Difundiu a sua fé, deu gritos ecológicos. Cantou, sobretudo, o amor.

Cinco canções

Cinco canções da dupla Roberto & Erasmo podem sintetizar a trajetória do Rei: “Quero que Vá Tudo pro Inferno”(1965), como retrato do artista quando jovem; “Jesus Cristo”(1970), expressão máxima do conjunto de canções de inspiração religiosa; Detalhes”(1971), que flagra o ingresso na maturidade; “Proposta”(1973), da safra de baladas erótico-sentimentais; e “Emoções”(1981), autorretrato tirado precocemente aos 40 anos.

Durante três décadas, seu disco de fim de ano foi um item obrigatório do Natal dos brasileiros. A tradição foi quebrada em meados dos anos 1990. De lá para cá, as canções inéditas escassearam. Deram lugar a trabalhos de exceção. Alguns muito bons, como o acústico da MTV (2001), o tributo a Antônio Carlos Jobim, dividido com Caetano Veloso (2008), e o recente “Primera Fila” (2015), gravado ao vivo no estúdio dos Beatles, em Londres.

Caetano Veloso enxerga em Roberto Carlos regiões profundas do ser do Brasil. Está certo. Na segunda metade dos anos 1960, quando ainda era muito jovem, e por toda a década de 1970, ele de fato construiu uma relação única com seu imenso público. Muito mais do que qualquer outro artista brasileiro. Com essa
“voz tamanha” que tem, o Rei e suas canções se confundem com o seu tempo. A traduzir as alegrias e tristezas dos que fielmente o seguem.