Cultura

A arte, a alquimia e as opiniões do incansável Lenine

Cantor, que traz a turnê do disco 'Carbono' para João Pessoa neste domingo (17), se mostra um questionador nato com suas fortes reflexões.



Flora Pimentel
Flora Pimentel
Cantor se recupera de uma recente internação por arritmia cardíaca e diz estar bem de saúde

Pernambucano, formado em engenharia química e músico há mais de 30 anos. Estas são algumas das palavras que descrevem Lenine. Embora seja mais simples usar poucas adjetivações, aos poucos, o universo que compõe o artista se mostra muito maior e mais rico, como ele mesmo faz questão de apresentar.

Recuperando-se de uma internação recente, resultado de uma arritmia cardíaca, ele se diz tranquilo em relação à saúde. “Eu nunca fui muito dos exageros, tenho boa alimentação, durmo bem. Sigo no meu caminho”, frisa, brincando sobre o motivo que o levou para o hospital. “O coração sempre foi chegado numas quiálteras, numas síncopes, batendo forte”.

Em visita a João Pessoa para trazer seu mais novo show, Carbono, originado do disco homônimo e que acontece neste domingo (17) no Espaço Cultural, em Tambauzinho, Lenine não economiza nos detalhes para falar sobre o ofício que mais ama – cantar e encantar públicos de diferentes gerações. 

Jornal da Paraíba: Você carrega alguma lembrança da Paraíba? Qual é a sua relação com o público daqui?
Lenine: Tocar no Nordeste é especial, é tocar em casa. O público da Paraíba sempre me recebe de uma forma muito bacana. Ainda mais pela questão passional, minha família é daí!

JP: O que os seus fãs e admiradores paraibanos podem esperar do show da turnê Carbono?
L: A turnê é inspirada no disco Carbono, mas no palco as canções estão, digamos, com uma roupa um pouco diferente, vestidas pela minha banda, um som mais pesado, que lembra um pouco Labiata.

JP: Você, como nordestino, usa muitos elementos regionais no seu trabalho; acha que o preconceito contra o Nordeste vem diminuindo? Considera que, hoje em dia, precisaria sair de Pernambuco para conquistar um espaço na música?
L: Pernambuco tem uma musicalidade ímpar. A gente vem de uma tradição de uma cultura muito refinada, popular, e, mesmo assim, muito refinada. Hoje, com São Google e o advento da internet, se produz boa música de qualquer lugar. Eu descobri muito cedo que as redes eram mais um caminho de aproximação com um público que me acompanha desde sempre. As possibilidades desse universo são infinitas.... Hoje é infinitamente mais acessível fazer discos e infinitamente mais difícil chamar atenção para o trabalho. Acho que é possível ter uma carreira sem ter que sair de Recife.

JP: Um artista como você, com mais de 30 anos de uma carreira sólida e bem-sucedida, ainda tem coisas a conquistar? O que você ainda ambiciona em relação à arte?
L: Estou sempre em busca de renovação. De algo que cause estranheza, questionamento, e, ao mesmo tempo, curiosidade, como uma crônica ou reportagem, uma ferramenta que ajude a gente a entender o que somos. Isso não tem mudado ao longo dos anos.

JP: Como é ser um artista inúmeras vezes premiado no Grammy Latino?
L: Prêmios são ótimos, quando ganhamos. É confirmação do caminho coletivo.

Lenine no palco, com banda, apresentando a turnê de seu mais recente trabalho, o disco Carbono. (Foto: Flora Pimentel)

JP: Para você que tem formação em engenharia química, quais paralelos poderiam ser traçados entre a química e o ato de fazer música? Você usa o que aprendeu com a química no seu processo criativo?
L: Claro. Meu trabalho é alotropia pura, que é justamente a capacidade de um elemento gerar outros elementos a partir de novas combinações. É tudo intuitivo. A gente é uma esponja, vai bebendo, vai bebendo. E como a gente joga isso? Eu não tenho a mínima ideia. A dosagem disso? A mínima ideia. Eu percebo quando estou fazendo. Não tem essa matemática, não é cartesiano.

JP: Você consegue se manter relevante na musica sem fazer muitas concessões para o mercado, como explica essa conquista?
L: Fiz um trabalho meio de formiguinha, fui na contramão da história. Sempre levei muito em consideração o sentimento de adequação em tudo que fiz e faço, e, por outro lado, antecede meu trabalho como artista o fato de eu ser um compositor. Isso me deu uma liberdade como artista e me permitiu cantar só parte do material que componho. De alguma maneira, eu sedimentei meu próprio terreno. Diria que isso requer uma mistura de talento, dedicação intensa e uma certa dosagem de "cabeçadurismo", de acreditar no seu caminho.

JP: A presidente Dilma Rousseff citou um trecho de uma de suas músicas ano passado durante manifestações contra o impeachment; como você, um artista essencialmente brasileiro, analisa esse cenário político atual e essa polarização que acontece no país?
L: É, "Eu Envergo Mas Não Quebro", uma parceria com Rennó, fiquei muito honrado. Penso que seria bem mais interessante se ela houvesse citado "Simples Assim", com Dudu Falcão, seria mais oportuno.

JP: Até que ponto você acha importante que artistas e intelectuais usem a influência para defenderem opiniões políticas? Você considera que isso possa influenciar negativamente a visão do público sobre o trabalho deles?
L: O que eu entendo por ser artista passa forçosamente por crônica e reportagem, opinião e posicionamento. Esse é o trabalho!

JP: O que o Lenine de 1979, ano em que foi lançado um dos seus primeiros trabalhos, com o grupo Flor de Cactus, diria para o Lenine de 2016? 
L: Que erro convicto é acerto (risos). Meu pai me ensinou a fazer três perguntas a mim mesmo a respeito do que estou fazendo para saber se estou no caminho certo: “o que eu faço, por que eu faço e para quem eu faço”. E sigo me questionando sempre, desde aquela época.