Cultura

Ícone do punk-rock, Iggy Pop renasce com ótimo disco 'Post Pop Depression'

Iggy volta aos trilhos pelas mãos de Josh Homme, que produz o 17º álbum de estúdio do cantor.



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Helders, Fertita e Homme evocam o melhor de Iggy Pop em décadas

No final de 2014, Iggy Pop pensava em David Bowie (1947-2016), o mentor que tirou da sarjeta o então vocalista do seminal Stooges e deu ao mundo um cantor versátil e repleto de energia através de uma estreia solo brilhante com The Idiot e Lust for Life, ambos lançados em 1977.

Pop começou 2015 em crise com a carreira. Depois de um estranho disco de jazz (Préliminaires, 2009) e um de covers em francês (Après, 2012), um dos pilares do punk-rock sentia que precisava de um mentor que lhe desse um rumo. Ele precisava de um sujeito como Josh Homme.

Cerca de 26 anos mais novo que Iggy Pop, Homme vem do rock que bebeu da fórmula que o vocalista dos Stooges cunhou na virada dos anos 1960 para os 1970. Estreou numa banda de stoner rock chamada Kyuss e ganhou fama com o Queens of the Stone Age. Daí foi o pipoco, chegando a produzir (e tocar) com bandas como o Eagles of Death Meta e Them Crooked Vultures.

Josh Homme acabou por produzir o 17º álbum de estúdio de Iggy Pop, Post Pop Depression (Universal Music, R$ 29,90), que acaba de chegar às lojas físicas e serviços de streaming.

Se Bowie levou Iggy Pop para a Alemanha, a fim de parir The Idiot, Homme conduziu o cantor para o deserto de Joshua, na Califórnia, onde fica o estúdio Rancho De La Luna, frequentado pelo líder do Queens of The Stone Age e onde foram gravados discos do Foo Fighters e PJ Harvey.

Lá, entre meditações sobre a vida e reflexões sobre a própria carreira, Iggy gravou um repertório de ótimas canções, certamente as melhores em pouco mais de 25 anos - ou desde o notável Brick by Brick (1990).

São nove canções novinhas em folha, fruto do encontro dos dois músicos e executadas por eles - Iggy no vocal e violão; Homme na guitarra, baixo, piano, sintetizadores e até percussão - mais Matt Helders (do Arctic Monkeys) na bateria e Dean Fertita (um freelancer que tocou em discos como Lazaretto, de Jack White) na guitarra, piano, sintetizadores e baixo.

Escudado por uma garotada, Iggy Pop soa jovial, resgatando o tino para ótimas letras (vide ‘Gardenia’, um filme noir em forma de canção), fazendo seu legado resplandecer apesar da temática melancólica - no deserto, Pop viu a luz, ou a falta dela, um depressivo mundo pós-pop dominado pelo terror - basta lembrar que os Eagles of Death Metal, que chegou a ter Josh Homme na bateria, entraria para a história como alvo de um dos piores ataques terroristas da história (e Homme só não estava lá porque estava trabalhando com Iggy).

Do folk tarantinesco ‘Vulture’ ao blues sombrios de ‘German days’, passando por uma homenagem a David Bowie (que ainda não tinha morrido enquanto o disco estava sendo gravado) em ‘America Valhalla’ (cuja melodia traz ecos de ‘China girl’) e incorporando a verve literária de Lou Reed (1942-2013) em faixas com a pomposa ‘Sunday’ e ‘Paraguay’, faixa que encerra e único momento em que Josh Homme deixa transparecer a sonoridade do Queens of The Stone Age.

O novo trabalho é um dos melhores da história de Iggy Pop e, desde já, um dos melhores discos de 2016.