Cultura

'Megatubarão' decepciona com tubarão gigante, mas 'clean'

Pressão por versão mais aceitável para famílias resulta em filme morno e contido demais.




megatubarão

O megalodonte é grande, mas bem educado: sabe matar com asseio.

RESENHA DA REDAÇÃOMEGATUBARÃO (China; Estados Unidos, 2018, 113 min.)
Direção: Jon Turteltaub
Elenco: Jason Statham, Li Bingbing, Rainn Wilson, Ruby Rose, Winston Chao
★★☆☆☆

 

Megatubarão (The Meg, 2018) anuncia-se como uma carnificina sanguinolenta aos moldes dos melhores filmes B que marcaram os anos 80 e 90. A premissa justifica: um tubarão gigantesco que se pensava extinto é descoberto apenas para provocar caos entre os seres humanos… maravilhoso para os fãs deste tipo de cinema despretensioso, gore e excessivo! É uma pena, então, que o filme, que estreia nesta quinta-feira (9) nos cinemas da Paraíba, entregue muito menos do que promete.

A narrativa gira em torno do experiente mergulhador Jonas Taylor (Jason Statham). Taylor é recrutado pelo bilionário Jack Morris (Rainn Wilson) e pelo Dr. Minway Zhang (Winston Chao) para resgatar uma equipe de cientistas que ficou presa no oceano, a 11 quilômetros de profundidade, após ser atacada por alguma criatura. No processo de resgate, Jonas e os outros acabam liberando das profundidades um megatubarão pré-histórico de 20 metros conhecido como megalodonte (que de fato existiu).

A partir daí, o filme constitui-se basicamente dos ataques do tubarão e de algumas cenas tentando desenvolver suas personagens. O tubarão é, de fato, o astro do filme, e com relação ao quesito monstruosidade ele não decepciona: a figura gigantesca criada por computação é suficientemente convincente e sua aparição rende alguns sustos durante a exibição.

megatubarão

Quando você acha que a ação vai começar…

O problema é que, quando o monstro ataca, tudo é clean e contido demais. No momento em que o bicho finalmente alcança uma praia lotada e você pensa que o caos prometido vai começar, nada de realmente trágico ou estimulante acontece. Em entrevista recente, o diretor do longa, Jon Turteltaub, afirmou que muitas das cenas mais pesadas tiveram de ser cortadas por exigência do estúdio, para que o filme pudesse ter uma classificação de 13 anos nos Estados Unidos e, assim, apelar para uma parcela maior do público. Para o diretor, os cortes não prejudicaram o resultado final – mas, a julgar pelo que vemos no cinema, a censura provocou tanto dano quanto uma mordida do bichinho que dá nome ao filme.

Megatubarão, assim, nunca ousa o suficiente para entrar naquele gênero de filmes bizarramente maravilhosos que te fazem ou rir dos absurdos na tela – caso do primeiro Sharknado (2013) – ou sentir medo genuíno – como o clássico Tubarão (1975), de Steven Spielberg. O filme de Turteltaub permanece estático entre as duas abordagens, e não tem força suficiente para abocanhar uma ou outra. Ver o megalodonte atacando é legal e as cenas, que são filmadas com enquadramentos interessantes, até provocam certa tensão, mas são ataques que parecem esterilizados e acabam se tornando repetitivos: muita ação, pouco horror.

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Por outro lado, a dinâmica das personagens (como é comum em obras do gênero) é fraca e não funciona em sua maior parte. A única que consegue garantir alguma profundidade e carga emocional à sua personagem é a atriz chinesa Li Bingbing, que interpreta a cientista Suyin Zhang. O personagem principal, Jason, é o típico salvador do dia. Sua mania em querer resolver absolutamente todos os problemas logo se torna irritante, e a tentativa do filme em abordar seus problemas psicológicos é totalmente superficial. Além disso, alguns plots são simplesmente deixados de lado, como a carta que um cientista deixa para a mulher antes de ser comido pelo tubarão. As piadas tampouco são engraçadas.

A indecisão entre um blockbuster familiar bem comportado e o que poderia ser uma gloriosa lembranças dos filmes trash dos anos 80 acaba esvaindo Megatubarão de qualquer valor genuíno. O filme diverte apenas medianamente e pode decepcionar grande parte da audiência iludida pelo trailer e pelos pôsteres, que prometem algo que não vai ser entregue. Fica a lição: da próxima vez, é melhor não tentar domar uma besta como essa.


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