Cultura

Luciana Hidalgo lança romance sobre Lima Barreto

Obra foi recém lançada pela Rocco. O romance O Passeador (192 págs., R$ 26) constrói um personagem terno, puro e idealista.




Pesquisadora dos limites entre sanidade e loucura em Lima Barreto, a jornalista Luciana Hidalgo recorreu à ficção para mostrar uma face menos conhecida do escritor. Recém-lançado pela Rocco, o romance O Passeador (192 págs., R$ 26) constrói um personagem terno, puro e idealista.

Ao percorrer a juventude de Lima Barreto (1881-1922), antes de ele publicar os livros que o tornariam respeitado, Hidalgo revela um homem já mordaz, mas bem mais suave que aquele da fase adulta –amargurado, belicoso e atormentado por alucinações decorrentes do álcool.

"Ele buscava a sinceridade, a verdade e a pureza. Mas, com as dificuldades e a rejeição que enfrentou, inclusive da crítica, foi se amargurando. Por isso que escrevo que só é muito cínico quem um dia já foi muito ingênuo", conta a autora.

O primeiro mergulho de Hidalgo no gênio do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma produziu Literatura da Urgência – Lima Barreto no Domínio da Loucura (Annablume), ganhador do prêmio Jabuti de crítica literária em 2009 e derivado da sua tese de doutorado em literatura comparada na Uerj (Universidade do Estado do RJ).
Se naquele trabalho a jornalista investigou a influência da experiência manicomial sobre a escrita de Lima Barreto, agora a aventura ficcional lhe garante maior licença para mesclar gêneros.

Meio novela, meio romance, O Passeador – que recebeu a Bolsa Funarte de Criação Literária, de R$ 30 mil – agrega pitadas de história e ensaio e traz dados biográficos e trechos do diário de Lima Barreto.

O cenário é o Rio da belle époque, entre 1904 e 1905, um caótico canteiro de obras da reforma urbana do prefeito Pereira Passos. O personagem de Lima Barreto, identificado pelo primeiro nome do escritor, Afonso, é o "passeador" do título, que, inconformado com a descaracterização da cidade, faz vigílias noturnas observando as alterações.

Durante o dia, divide-se entre o trabalho burocrático na Secretaria da Guerra e as idas ao sebo do livreiro português Tiago, onde trabalha a jovem Sofia, cuja origem a trama desvenda aos poucos – e com quem Afonso mantém um flerte platônico.

Nascido há 130 anos no Rio, o que justifica tantos títulos em torno dele em 2011, Lima Barreto foi um celibatário. Ia a prostíbulos, mas, recorda Hidalgo, saía enojado.

Seria Sofia um alter ego de Luciana Hidalgo? "Tem um pouquinho, sim. A paixão pela literatura, o idealismo. Mas Sofia também é meio que um duplo feminino dele".

Hidalgo, 46, é autora da biografia de outro artista a ter sua obra impregnada pela internação manicomial: Arthur Bispo do Rosário (1911-1989). (Da Folhapress)
Ex-repórter do Jornal do Brasil e de O Globo, a carioca Hidalgo, 46, mora temporariamente na França, onde faz pós-doutorado (Da Folhapress)