Cultura

The Handmaid’s Tale parece feito para o Brasil de hoje

A primeira temporada está sendo exibida na TV Globo desde o mês passado.




Demorei bastante para assistir aos primeiros episódios de The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia, em tradução livre). Tento fugir das séries porque elas costumam criar uma espécie de vício, algum tipo de dependência mesmo… Pois bem, mesmo que tardiamente, decidi encarar a maratona de capítulos. Resultado: estou assustadoramente viciado, dependente e certo de que essa série foi feita para os brasileiros… Inclusive, a primeira temporada está sendo exibida na TV Globo desde o mês passado.

A produção é baseada no romance de 1985 da escritora Margaret Atwood. The Handmaid’s Tale tem como essência a denúncia contra a opressão sofrida por mulheres. Em um futuro não muito distante, mulheres são forçadas a uma espécie de escravidão reprodutiva para gerar os filhos da elite. Usam uma versão alvirrubra de uma quase burca. São as aias, obrigadas a viver para engravidar e parir. Submissão e opressão são as palavras de ordem nesse mundo caótico…

Offred (personagem da atriz Elizabeth Moss) é a narradora da história. É muito impactante o clima belicoso e de extremo desrespeito para com mulheres e gays. Um clima de atropelamento contra qualquer que diga não às regras impostas e que não tenha comportamento considerado ‘normal’ por quem tomou o poder através de um golpe… Na série o nome do lugar é República de Gilead.

A protagonista precisa se submeter a um ritual sexual de rotina com seu comandante, Fred Waterford. O nome da personagem é June, mas ela perde o próprio nome ao ser obrigada a se tornar uma aia. Passa a ser ‘Offred’ porque ela passa a ser ‘de Fred’. Ser fértil é o grande inferno de Offred. Ser fértil em um lugar as mulheres da classe dominante se tornaram inférteis após ingestão de toxinas do meio ambiente.

Em uma das falas da primeira temporada (a segunda já foi concluída) June conta que os alertas para que o golpe acontecesse foram dados de diversas maneiras. Ela destaca que os ataques contra gays foram intensificados e que as mulheres passaram a ser (cada vez mais) desvalorizadas (inclusive no mercado de trabalho). A autora do livro vive falando que a essência da publicação está na vida real…

Assistindo aos episódios da série é impossível não lembrar do ódio que é disseminado contra a comunidade LGBTT nos dias de hoje, especificamente, no Brasil. Impossível não lembrar das falas do presidente Jair Bolsonaro contra mulheres e contra gays. Impossível não lembrar dos ‘guardas da esquina’, censores civis de toda e qualquer ditadura…

O fim do estado laico

O livro de Atwood refletiu – na década de 1980 – a adesão americana ao conservadorismo com a eleição de Ronald Reagan como presidente, assim como o crescente aumento da direita cristã e suas organizações, além do aumento do televangelismo e webevangelismo. Mulher-objeto. Mulher-parideira. Mulher sem fala. Mulher que oprime mulheres. Essas são as mulheres do livro. Essas são as mulheres da série.

Mulheres que sofrem com as decisões políticas baseadas em decisões políticas baseadas em dogmas religiosos. Decisões que não levam em conta a ideia de estado laico. Decisões fundamentadas em passagens bíblicas e que reforçam o sexismo. O livro de Atwood até virou filme na década de 1990, mas passou batido (e ainda sofreu críticas bem negativas). o longa do alemão Volker Schlöndorff (com Natasha Richardson e Faye Dunaway no elenco) foi um fiasco…

Adaptações de teatro foram feitas na Universidade de Tufts nos EUA e em uma tour no Reino Unido. Também foi feita uma ópera por Poul Ruders que estreou em Copenhagen em 2000 e foi interpretada pela Ópera Nacional Inglesa em Londres em 2013 e pela Cia Canadense de Ópera em 2004-2005. O Balé Real de Winnipeg também fez sua interpretação da história em 2013.

‘Nolite te bastardes carborundorum’

Sucesso mesmo só veio com a série para a TV… Obviamente, esse sucesso se explica pelo novo alerta resultante da chegada de Donald Trump ao poder (que entrou no cargo apenas três meses antes da estreia da série). The Handmaid’s Tale mostra um governo declarando uma lei marcial após um ataque de extremistas islâmicos, em um regime que elimina homossexuais e que obriga mulheres a serem apenas ‘barrigas’.

Os alertas, também no Brasil, estão sendo dados regularmente. Há um clima de ódio e violência latente. Negros, pobres, gays e mulheres são e serão (ainda mais) as principais vítimas. Sem risco de spoiler, é preciso lembrar de uma das frases mais marcantes da obra, talhada na parede do closet de Offred (por sua antecessora): ‘Nolite te bastardes carborundorum’, que pode ser traduzido como ‘Não deixe os bastardos te oprimir’. Fique em alerta… Fica a dica…


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