Cultura

'Estancar a sangria': série 'O Mecanismo' coloca frase de Jucá na boca de Lula e gera polêmica

Produção mostra a investigação da Lava Jato. José Padilha rebateu reclamações.




Personagem João Higino é baseado no ex-presidente Lula.

Como já era esperado, ‘O Mecanismo’, nova série da Netflix que aborda a investigação da Operação Lava Jato, estreou causando polêmica. A produção de José Padilha, responsável pelos dois ‘Tropa de Elite’ e por ‘Narcos’, está sendo acusada de distorcer a realidade. Um dos motivos de queixas é o fato fato da frase “estancar a sangria”, que já entrou para o ‘folclore’ da política brasileira, ser dita pelo personagem do ex-presidente do Lula (PT), quando todo mundo sabe que ela saiu da boca do senador Romero Jucá (MDB). Uma das pessoas que se posicionaram publicamente contra ‘O Mecanismo’ foi a ex-presidente Dilma Rousseff , que também ‘aparece’ no seriado.

Parte do público contestou a forma como Padilha guiou a história da série. E inclusive, foi lançada nas redes sociais uma campanha defendendo que as pessoas cancelassem as assinaturas do serviço de streaming.

No domingo (25), a ex-presidente Dilma Rousseff publicou um texto sem perfil no Facebook, acusando a série de ser mentirosa e dissimulada. Ela afirma que, apesar de ‘O Mecanismo’ se dizer “baseada em fatos reais”, Padilha mente e promove o “assassinato de reputações”. “O diretor inventa fatos. Não reproduz ‘fake news’. Ele próprio tornou-se um criador de notícias falsas”, afirma Dilma

A ex-presidente diz que, sobre ela, Padilha inventou uma série de fatos. Cita, por exemplo, o fato do doleiro Alberto Youssef não ter tido nenhum participação na sua campanha de reeleição, nem estado na sede do comitê, como aparece logo no primeiro capítulo da série. “A má fé do cineasta é gritante, ao ponto de cometer outra fantasia: a de que eu seria próxima de Paulo Roberto da Costa. Isso não é verdade. Eu nunca tive qualquer tipo de amizade com Paulo Roberto, exonerado da Petrobras no meu governo”, diz Dilma.

“O cineasta não usa a liberdade artística para recriar um episódio da história nacional. Ele mente, distorce e falseia. Isso é mais do que desonestidade intelectual. É próprio de um pusilânime a serviço de uma versão que teme a verdade”, pontua Dilma, engrossando os ataques contra Padilha. (confira a nota completa abaixo).

Outro que se posicionou sobre ‘O Mecanismo’ foi o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Cotado como um plano nas eleições presidenciais, caso Lula seja de fato barrado, ele também usou as redes sociais para se posicionar. “Tinha que nascer aqui esse gênero cinematográfico: a fake fiction. Pérfido mecanismo”, afirmou no Twitter.

O cineasta José Padilha rebateu todas as críticas feitas à série e classificando a discussão em torno do “estancar a sangria” como “boboca”. Ele disse ainda que na abertura de cada capítulo da série é avisado que fatos foram aleterados para efeitos dramáticos e que para o “pessoal que sabe ler, não há ruído algum”.

“Não escrevi o roteiro do episódio 5 [quando a frase é dita], nem o dirigi. O roteiro foi de Elena Soárez e a direção foi de Marcos Prado. Seja como for, chequei os diálogos. São diferentes. Não houve transcrição por parte da Elena. Além disso, a repetição do uso de uma expressão idiomática comum, como “estancar a sangria”, não guarda qualquer significado. Delcidio usou a expressão “acordo”. Se Higino falar “acordo” ele é o Delcidio? O fato de o Jucá ter usado a expressão “estancar a sangria” não a interdita. Escritores continuam livres para fazer uso dela”, disse Padilha em entrevista ao site Observatório do Cinema, do Uol. “De fato, esse é um debate boboca, mas que revela algo: se a principal reclamação é o uso desta expressão, pode-se imaginar que o público petista está achando difícil negar todo o resto”, completou.

Na avaliação de Padilha, o objetivo da série é mostrar a corrupção sistêmica na política brasileira e não atacar algum político ou partido. “Essa turma não entendeu que a série é uma crítica ao sistema como um todo e não a esse ou àquele político ou a qualquer grupo partidário. Por isso se chama O Mecanismo. Assim, misturar falas ou expressões de um político-personagem que o público pode confundir quem falou não tem a menor importância, pois são todos parte do sistema. É esse mecanismo que queremos combater”, justificou.

A Netflix ainda não se pronunciou oficialmente sobre a polêmica em torno da nova produção.A série O Mecanismo, com direção de Padilha e roteiro de Elena Soares, é inspirada no livro ‘Lava Jato – O Juiz Sergio Moro e Os Bastidores da Operação Que Abalou O Brasil’, de Vladimir Netto . Distribuída em oito episódios, ela faz referência a fatos e personagens investigados na operação, mas usa nomes fictícios para pessoas, empresas e até corporações.

 

 


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