Cultura

Dez anos sem Livardo Alves

Jornalistas e músicos relembram vida e obra do compositor paraibano Livardo Alves, cuja morte completa 10 anos.



Ilustração: William Medeiros
Ilustração: William Medeiros
Memória de Livardo se perpetua no carnaval e nos hinos da maioria dos clubes de futebol paraibanos

 

Sentado em um banco de praça do Ponto de Cem Réis, em João Pessoa, Livardo Alves inspeciona, com seu olhar metálico, o vaivém do povo na manhã de sexta-feira.

Com a vista turva (seus óculos foram roubados, como as cuecas da marchinha), o compositor está de pernas cruzadas e com o braço direito à espera dos ombros amigos que, há uma década, ouviram sua voz se calar para sempre.

Um deles, Joca do Acordeon, lembra-se de quando o conheceu na década de 1970, época em que ainda não era estátua, mas um talentoso músico de um ‘conjunto jovem’ da cidade.

"Desde então o paradeiro dele, à noite, era o viaduto do Ponto de Cem Réis. Ele sempre podia ser encontrado por lá", conta o sanfoneiro, que gravou com Livardo os dois únicos CDs de sua carreira: Sol (1999) e Malandros do Morro (2002).

Saudoso, Joca se recorda também do temperamento benevolente do amigo: "Livardo sempre me visitava em casa, para conversarmos sobre música e tocarmos um pouquinho.

Tocar com ele era simples, bastava fazer o certo. Era o que importava".

Quase sempre guardada para quando o carnaval chegar, a memória de Livardo também se perpetua nos hinos da maioria dos clubes de futebol paraibanos e em uma porção de sua obra ofuscada pela marchinha que é, segundo o jornalista Fernando Moura, senão a mais, uma das mais tocadas de todos os tempos.

"Livardo tinha duas características muito peculiares como compositor: a sofisticação poética e melódica unida a uma linguagem de extremo apelo popular. Algumas canções dele têm uma armação melódica que, equilibrada com esta outra característica, foi o que tornou sua carreira bem sucedida, embora não financeiramente", conta Fernado Morais.

Para o jornalista, a própria Paraíba, de forma geral, "não acompanhou com o devido cuidado nem pousou um olhar mais carinhoso" na vasta obra de Livardo.

Como exemplo da faceta desconhecida de um dos nomes mais famosos da estirpe de artistas oriundos do Jaguaribe, Fernando Mouracita ‘Doces ervas’, "um hit muito tocado nos círculos boêmios e que tem uma forte conotação política".

Outra é ‘O meu país’, feita em parceria com Orlando Tejo e Gilvan Alves, gravada por Zé Ramalho: "Este repertório político tinha uma visão social emblemática e fazia muita referência à terra, ao que se planta e ao que se colhe", acrescenta.

"O que me chama muito a atenção, no que diz respeito a Livardo Alves, era a desenvoltura com que ele transitava, na música e no cotidiano, por tantos universos. Não é à toa que a sua estátua está no Ponto de Cem Réis: aquele lugar era, para ele, uma fonte de inspiração constante e um local que ele visitava de maneira religiosa. Era uma pessoa muito próxima do povo, que conhecia do engraxate ao desembargador. Uma figura muito natural e muito humilde cuja obra, se pudesse ser resumida em duas palavras seriam essas: versatilidade e inventividade", testemunha o jornalista.