Cultura

Desconhecido da população, hino de João Pessoa foi criado há 50 anos a partir de um concurso

No aniversário da capital paraibana, o JORNAL DA PARAÍBA conta a história dessa música esquecida.




Hino oficial de João Pessoa foi resgatado a partir de um trabalho feito na Câmara Municipal (Foto: Anderson Silva)

“Num recanto bonito do Brasil, sorri a minha terra amada. Onde o azul do céu é mais cor de anil. Onde o sol tão quente parece mais gentil”. Os versos são de ‘Meu Sublime Torrão’, música do compositor Genival Macedo que é uma verdadeira exaltação a João Pessoa. A identificação dela com a cidade é tamanha que muitos acreditam que a canção seja o hino oficial do município. Só que não é. Pouca gente sabe, mas a capital paraibana tem uma composição que a representa oficialmente. No aniversário de 433 anos de João Pessoa, comemorado neste domingo (5), o JORNAL DA PARAÍBA conta um pouco da história em torno desse hino criado há cinco décadas, resgatado há 10 anos, mas ainda desconhecido da população.

O hino de João Pessoa foi instituído em setembro de 1968 após a Câmara Municipal promover um concurso, lançado um ano antes. A iniciativa foi do vereador Cícero Leite, que estabeleceu um prêmio de NCR$ 150,00 (cento e cinqüenta cruzeiros novos) para o autor da letra e o mesmo valor para quem fizesse a melodia vencedora. O que significa dizer que ele custou NCR$ 300,00 aos cofres municipais. Em valores corrigidos, o valor representaria pouco mais de R$ 3,3 mil, isso fazendo um cálculo comparativo entre o Índice Geral de Preços (IGP) da época e o de 2018.

A vencedora do concurso foi Eunice de Souza Setti Costa, que fez o hino completo. A composição que ganhou o status de oficial é uma mistura de homenagem ao presidente João Pessoa, história da cidade e referências às belezas naturais da capital paraibana. Ela começa com os seguintes versos: “No Nordeste do Brasil te encontramos, onde vemos o encanto de um verde mar. És a terra gloriosa que amamos, e o teu nome exaltamos a cantar. De um grande presidente de estado, tu ressurgiste, ó, cidade vitoriosa!” (ouça na íntegra no vídeo abaixo* e veja a letra no final da reportagem)

A música cita as mudanças de nomes da cidade (‘no passado, outros nomes recebeste’), o principal cartão-postal (‘tens palmeiras no teu parque mais formoso’) e também faz uma menção especial ao litoral (‘Tambaú trazendo a brisa mansamente, num afago que nos prende sob o céu anil’).

Hino oficial suprimido pelo popular

Apesar de ter sido chancelado pela Câmara Municipal de João Pessoa, o hino oficial acabou caindo no vácuo da história. “Ele é totalmente esquecido, ninguém tinha informações sobre ele”, afirma a historiadora Irene Rodrigues da Silva Fernandes. Escritora e ex-professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e também da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Irene pode ser considerada uma das responsáveis pela ‘ressurreição’ da composição de Eunice de Souza Setti.

Esse processo começou em 2007, exatamente 40 anos após a abertura do concurso. Irene trabalhava em uma pesquisa para localizar documentos da Câmara Municipal de João Pessoa, que iriam compor o acervo do Centro Cultural do Legislativo pessoense. Nessa busca, foram encontrados atas de sessões que falavam da escolha do hino e a partir daí nasceu a ideia de se fazer o resgaste dele. Isso acabou integrando um projeto chamado ‘Marcos e Símbolos da cidade de João Pessoa’, lançado em 2014, que resultou em uma cartilha, escrita pela própria Irene, e também um CD que tem aquela que é possivelmente a primeira gravação do hino oficial, feita pelo coral da Câmara.

“’Eu fiz um projeto para o coral resgatar esse hino. Já tinha falado com o maestro Rogério Borges, que é da Banda 5 de agosto, e ele localizou as partituras”, explica a maestrina do coral da Câmara, Socorro Estrela, outra peça fundamental no processo de recuperação da música.

Meu sublime torrão…

A historiadora Irene Rodrigues tem uma tese para explicar o quase desaparecimento do hino escrito por Eunice de Souza Setti. Para ela, o ‘problema’ foi causado por ‘Meu Sublime Torrão’, a música que abre a reportagem.

Em 1972, a composição de Genival Macedo foi reconhecida pela Câmara Municipal como hino popular da capital paraibana. A lei que estabelece isso, inclusive, tem um artigo que recomenda a execução nas festas promovidas pelo município, “que terá o encargo maior da sua divulgação”. Em nível da comparação, a lei que institucionaliza o hino oficial não tem nenhuma orientação deste tipo.

“Todo mundo conhece o hino popular, ele atendeu a necessidade da comunidade de ter uma música para lhe representar. Não se sentiu falta de um hino oficial e ele acabou caindo no esquecimento”, diz Irene Rodrigues.

Quem é Eunice de Souza Setti?

Apesar de ter sido responsável tanto pela criação como, de certa maneira, pelo processo de resgate, a Câmara Municipal não tem tantas informações sobre o hino oficial. O JORNAL DA PARAÍBA procurou documentos que detalhassem as regras do concurso e sobre a vitória de Eunice de Souza Setti no Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (SAPL), que é uma espécie de apanhado digital de toda a produção dos vereadores, mas não encontrou. A reportagem queria ter acesso às justificativas do projeto de lei, mas encontrou apenas a norma final. Também foi sem sucesso a consulta direta feira aos arquivos da Casa.

Prefeito Luciano Cartaxo é autor do projeto que colocou o nome de Eunice em uma rua de Mangabeira (Foto: Rizemberg Felipe/Arquivo)

Informações sobre a compositora também são praticamente inexistentes nos arquivos da Casa. Em 2005, ela teve o nome colocado em rua de Mangabeira, maior bairro da cidade, a partir de uma iniciativa do então vereador e atual prefeito, Luciano Cartaxo. É comum que propostas desse tipo tenham a biografia do homenageado incluída, mas no caso em questão ela apareceu de forma bastante reduzida.

O projeto de Cartaxo diz apenas que ela nasceu na capital paraibana em 5 de julho de 1922 e morreu em 14 de janeiro de 2005, aos 82 anos. E ressalta que ela era uma “pessoa estimada pela comunidade”, merecedora da homenagem por ter sido autora do hino de João Pessoa. “Eu procurei mais informações sobre ela, mas acabei não encontrando antes de finalizar a minha pesquisa”, ressalta Irene Fernandes.

‘Ressuscitando o hino a partir das escolas’

A historiadora Irene Rodrigues acredita que o resgate do hino é importante para a construção da identidade da população local. Ela pondera que a melhor jeito de se fazer isso é a partir do trabalho nas escolas. O diretor de Gestão Curricular da Secretaria de Educação de João Pessoa, Gilberto Cruz, garante que isso começou a ser feito nos estabelecimentos da rede municipal de ensino há pelo menos dois anos.

Segundo Gilberto, alunos de escolas de Ensino Fundamental I e II cantam o hino de João Pessoa e o nacional no 1º dia útil da semana e também na sexta-feira. Paralelo a isso, professores de artes trabalham a letra em sala de aula. “É uma cultura que estamos tentando implantar. A maioria dos alunos não conhece o hino de João Pessoa”, declara o diretor.

Ele diz que a ação já acontece em pouco mais de 30 escolas da cidade. “A gente precisa retomar essa discussão para valorizar aquilo que é nosso.Tem toda uma história por trás”, completa Gilberto.

A maestrina Socorro Estrela afirma que desde 2014 a Câmara Municipal passou a executar o hino durante sessões solenes, substituindo o popular ‘Meu Sublime Torrão’. “Nosso trabalho é para difundir o hino, fazer com que ele se torne mais conhecido”, enfatiza.

Hino Oficial de João Pessoa

 

No nordeste do Brasil te encontramos,
onde vemos o encanto de um verde mar.
És a terra gloriosa que amamos
e o teu nome exaltamos a cantar.
de um grande presidente de estado,
tu ressurgiste, ó, cidade vitoriosa!
Se tens o nome pelas ondas do passado
Não deixarás de ser sempre valorosa.

Tua bandeira simboliza o Heroísmo
de um exemplo imortal
que em teu nome ficou
E no grito do Nego,
defendeu o teu povo rebelde
e te glorificou. (REFRÃO)

No passado, outros nomes recebeste,
consagramos o teu solo, sempre a exaltar
a Bravura e a Nobreza não perdeste
João Pessoa, tu és hoje, a vibrar.
Teus combates sempre foram triunfantes
e o heroísmo a história nos declara
e evocando teus primeiros habitantes,
Tu serás sempre a cidade tabajara.

Tens palmeiras no teu parque mais formoso,
A Lagoa circulando sempre a inspirar,
O poeta decantando orgulhoso,
vem fazer tua beleza proclamar.
Tão formosas as acácias que se espargem
em ornamento pelas tuas avenidas.
São tantas flores escondendo a folhagem,
deixando enfim, tuas árvores floridas.

Tambaú trazendo a brisa mansamente,
num afago que nos prende sob o céu anil
e o soberbo Cabo Branco evidente
na paisagem litorânea do Brasil.
Nos teus mares as jangadas velejando,
No horizonte vem o sol resplandecente.
Quanta grandeza que encerras inspirando
no teu valor consagrado eternamente!

* No vídeo o hino é cantado pelo Coral Antônio Leite de Figueiredo. A produção é da TV Câmara


Você sabia que o Jornal da Paraíba está no Facebook, Instagram, Youtube e Twitter? Siga-nos por lá. Encontrou algum erro? Entre em contato.