O silêncio é o um grito
Dois reais. Era o que tinha Marina quando vinha para João Pessoa fazer o tratamento de câncer de mama. Quimioterapia, radioterapia, vômitos, fome e sede. Era assim das cinco da manhã, quando desembarcava na rodoviária, depois de mais de 12 horas de ônibus e espera. O dinheiro servia para comprar um café, um pastel e esperar a hora de voltar. O retorno, também com sacrifício, só não era pior porque ela encontraria o alívio do abraço da filha pequena e da certeza de que a necessidade iria se afastar.
Marly descobriu que tinha um nódulo do tamanho de um limão. Fez a cirurgia imediatamente (no Napoleão Laureano, em JP). Mas como não tinha dinheiro para voltar para Capital e fazer a revisão, descobriu que a demora “manchou” o peito. Teve que ser mutilada. Arrancaram mama, deixaram angústia e um buraco na consciência dela. Depois disso não faltou dinheiro, porque Marina foi às ruas. Pediu esmola três vezes. Queria viver. “Eu só pensava na minha filha. Não queria morrer e deixar ela, que ainda era pequena. A minha filha precisava de mim”, relata agricultora de olhar forte e com muito peito para enfrentar a barreira da falta de política pública para saúde. “Sou analfabeta. Não sei do “a”, mas enfrento tudo com a cara e a coragem”.
Durante cinco anos, foi e voltou de Jericó para João Pessoa (440 km). Moto, carro, ambulância, ônibus, carona. Com dinheiro ou sem. E teve sorte: encontrou um médico atencioso e sensível a sua causa. E pensar que são milhares de sertanejos assim. Agredidos pela doença, humilhados pela falta de planejamento, sensibilidade e compromisso público. Foi o que pensei quando fazia a entrevista, com esse exemplo de vida. Senti. Meu cinegrafista também. Era um relato sem ideologia, sem política. Era uma paraibana que precisou de ajuda.
Não dava para achar que era só uma história pra contar. Mas que bom que pude fazer isso. Com a raiva da minha incapacidade de cristalizar aquele momento e entregá-lo ao telespectador com toda a sua força. Com a dor de saber que nada vai mudar e, até que isso aconteça, muitos vão morrer no meio do caminho. Outros vão ficar com sequelas irreparáveis. “Eu me sinto uma vitoriosa”, foi assim… com essa frase, seguida de um suspiro, de coração apertado, que ela silenciou. Eu também silenciei. Nessa hora, o silêncio é um grito.
Agora eles “pescam” lixo
Sabíamos que o Rio Sanhauá estava sujo, mas não com tamanha imundice. A revelação assustadora foi feita pelos irmãos Edvaldo e Juvenal, da terceira geração de pescadores da família. Eles moram em Bayeux, a beira do mangue. A reportagem foi exibida no início de setembro no JPB2, na CaravanaJPB. Talvez você tenha se assustado com que viu. Nós tivemos vontade vomitar.
O passeio de barco é deslumbrante, até o olho enxergar a imensidão da sujeira. O fundo do rio é lixo. De uma ponta a outra. O pior é que duvidei de Edvaldo. Ele entrou na água e começou, com uma sequência surpreendente, a “pescar” lixo com as próprias mãos. Primeiro veio plástico, depois bolsas, fraudas, pedaços de ferro. O irmão tirou um ventilador cheio de corais, uma cadeira de balanço. Lá na frente vimos um orelhão, colchão e milhares de garrafas pet, que se tornaram um “adorno” de mau gosto, nos galhos das árvores do mangue.
A lama tem uma extensa camada de esgoto que se sobrepõe ao ambiente que um dia havia reprodução intensa de caranguejo. O local fede a cada pisada. Os pés afundam numa lama suja e sem vida. O rio o mangue parecem dentro de um corredor da morte. O instrumento para agressão são as bocas de lobo que “expelem” o veneno que nós produzimos de forma inconsequente e irresponsável.
Os irmãos ainda não se renderam. Como tem feito a natureza, tentam se renovar, procurar alternativas. Não tiram mais caranguejo, o peixe é cada vez menor e em menos quantidade, o camarão não suportou a falta de ar. A renda da família também foi sufocada.
Temos um Tietê esquecido pelo poder público numa das áreas mais belas dessa cidade. Ele fica do lado de gente esquecida pelo poder público. Talvez essa seja a combinação mais perversa. O pior é que a gente esqueceu que não podemos esquecer disso. Mas Juvenal e Edvaldo lembram todo dia. A necessidade de se alimentar se ocupa disso. O desespero de não ter de onde tirar o sustento é um alerta insuportável e doloroso.
Os mais pessimistas da família (principalmente, das novas gerações) não esperam mais mudanças. Não são mais pescadores. Por ironia social, agora, são catadores. Coletam, no rio e no mangue, o lixo que substituiu o peixe. Um troca perversa, que não devemos esquecer.










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